terça-feira, 6 de julho de 2010

465. Jornal i entrevista Orlando Monteiro da Silva (Parte 2: Análise da entrevista/2)

Para o bastonário da Ordem dos Médicos Dentista, o Estado não tem de prestar cuidados de saúde mas zelar que estes são prestados, regulados e financiados. Segundo essa perspectiva, parece que a OMD defende que os cuidados de saúde devam ser prestados por contratação de serviços a terceiros e suportados financeiramente pelos nossos impostos; é uma opção, como muitas outras. Logicamente terá aspectos positivos e aspectos negativos. No entanto, é preciso lembrar que, em trinta anos, o Estado montou uma vasta e completa rede de serviços públicos de saúde, tanto em quantidade como em qualidade, pelo que seria mais lógico favorecer uma completa concorrência de prestação de cuidados de saúde entre a oferta do sector publico e a oferta do sector privado, deixando a opção aos doentes/clientes; isso sim é que seria a melhor lógica: todos ficaríamos a ganhar e os equipamentos existentes seriam devidamente rentabilizados. Não podemos agora deixar de rentabilizar o investimento público realizado pelo Estado nos últimos trinta anos e entrega-lo a empresas ou grupos económicos privados que visam o lucro, à custa da exploração dos doentes/clientes.
Relativamente ao programa de cheque-dentista, o mesmo é uma desesperada maquilhagem montada pelo Ministério da Saúde no sentido de colmatar parcialmente uma das maiores debilidades criadas pelas erróneas politicas seguidas na área da saúde oral pelos vários governos nos últimos trinta anos; utilizar o cheque-dentista para fidelizar doentes/clientes, à custa da miséria e da pobreza de quem tem de recorrer à sua utilização parece, no mínimo, uma declaração caricata. A fidelização deverá orientar-se, isso sim, pela qualidade dos serviços prestados.
Fica uma pergunta: como foi possível à OMD aceitar o programa quando pedia 80 euros por cada cheque-dentista e o seu valor foi fixado em 40 euros? Afinal, será que os tratamentos efectuados por cada cheque-dentista seriam idênticos caso o seu valor fosse o dobro do actual? São questões prementes que a entrevista não dá a esclarecedora resposta.
Perniciosa continua a ser a relação entre uma grande proporção de dentistas e seguradoras, sem que a OMD imponha uma ordem de ética que salvaguarde a saúde oral dos os doentes/clientes; pura aberração, como não podia deixar de ser, as comparticipações da ADSE nos custos de tratamentos de saúde oral.
(Continua)

2 comentários:

Vasco Boga Duarte disse...

Muito bem visto!

Gerofil disse...

Obrigado; a análise da entrevista vai continuar. É preciso esmiuçar o seu conteúdo até ao fim, para que as pessoas e cidadãos entendam o seu sentido.