segunda-feira, 5 de outubro de 2009

393) 900 vilarrealenses já estão na lista de espera do dentista

Depois das cataratas e dos tratamentos oftalmológicos, que estiveram na base das mediatizadas viagens à ilha caribenha de Cuba, a Câmara de Vila Real de Santo António vai agora tratar da saúde oral dos munícipes. Para arrancar com o programa, seis clínicas privadas já assinaram um protocolo com a autarquia, que vai desembolsar uma verba inicial de 300 mil euros.
De forma a dar prioridade aos casos mais urgentes, o município contratou também um médico dentista que, ao longo dos últimos dois meses, tem feito rastreios semanais nas três freguesias do concelho. «No caso da oftalmologia, não houve parcerias com a rede de privados portugueses porque os preços e a qualidade não eram competitivos com Cuba. Agora, houve compreensão dos profissionais de medicina dentária do concelho, que se dispuseram a praticar um valor abaixo dos preços de mercado para que os tratamentos fossem feitos aqui no município», explicou o autarca Luís Gomes ao «barlavento».
Questionado sobre se a medida irá abrir uma nova «brecha» no relacionamento com o Ministério da Saúde, o social-democrata respondeu que o único problema que existe é entre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e a população. «Não há médicos dentistas no centro de saúde de VRSA e no Hospital de Faro existe apenas um ou dois, para tratar toda a região», argumentou.
Por agora, o protocolo garante financiamento até ao final do ano, embora a sua renovação dependa da cor política que vier a ocupar a cadeira do executivo depois de 11 de Outubro. «O protocolo não tem prazo e é mantido enquanto houver vontade política e necessidades da população. É como o protocolo que temos com a república de Cuba, que é infindável a não ser que alguma das partes o denuncie», assinalou Gomes.
Segundo o edil vilarrealense, os 300 mil euros agora disponibilizados não serão suficientes para garantir os tratamentos das 900 pessoas já em lista de espera, o que obrigou a dar prioridade às crianças e idosos.
De acordo com o coordenador do programa «VRSA a Sorrir» Paulo Sousa, a atenção será redobrada nas faixas nas etárias mais jovens, onde há crianças com menos de 10 anos em que a extracção dos dentes definitivos é já a única solução possível. Sobre as causas desta situação, o médico dentista associa às questões culturais à fraca capacidade económica das famílias. «Nota-se que há, em Vila Real, grupos com uma grande incidência de problemas dentários devido à falta de recursos para pagar tratamentos de rotina nos privados», concluiu.
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É claramente vergonhoso ser portugues e ter conhecimento que o Ministério da Saúde, a Direcção-Geral de Saúde e a Administração Regional de Saúde do Algarve permitem a existência de crianças com menos de 10 anos de idade já sem dentes definitivos, em pleno Século XXI e na região turística por excelência de Portugal. A pergunta é simples: algum filho ou neto com menos de 10 anos de idade da Senhora Ministra da Saúde, da Ministra da Educação, do Senhor Director-Geral da Saúde, do presidente do Conselho de Administração da ARS do Algarve e do Presidente da Ordem dos Médicos Dentistas já perdeu os seus dentes definitivos?
Afinal, para onde vão os milhares de milhões de euros de fundos comunitários? Será melhor investir em aeroportos e TGV ou na saúde dos portugueses? Será mais "interessante" dar educação sexual nas escolas do que tratar da saúde oral de todas as crianças, sem excepção?
Este exemplo prova que é possível dar uma volta completa ao desolador panorama da saúde oral em Portugal quando os representantes do poder e dos médicos dentistas se sentam a uma mesa e dialoguem para chegarem a acordo. Os problemas da saúde oral já não existiriam em Portugal se fosse sempre esse o espírito a seguir por governantes e representantes dos médicos dentistas e estomatologistas.
Gerofil

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