sexta-feira, 14 de setembro de 2007

191) Para memória futura

Venho por este meio dirigir-me a Vossas Excelências no sentido de esclarecer, quanto possível, as questões pelas quais procuro obter esclarecimentos e respostas efectivamente concretas. Assim, depois de solicitar a algumas entidades que se dignassem a prestar-me algumas informações, notei que ou não fui suficientemente claro ou então obtive respostas que rigorosamente nada tinham a haver com as informações que eu tinha solicitado.
Assim, para retirar qualquer dúvida acerca das questões para as quais procuro um total e completo esclarecimento, todo primeiro a liberdade de resumir, tanto quanto possível, as vicissitudes pelas quais passei e que hoje levantam-me toda uma série de interrogações pelas quais pretendo respostas esclarecedoras e concretas.
O assunto fundamental e pertinente que me leva a fazer esta pormenorizada descrição está relacionada com a qualidade da prestação de cuidados de saúde oral que obtive durante todo o meu período de formação, nomeadamente entre os anos 80 e o final da minha licenciatura, que concluí na Universidade de Lisboa.
Embora possa aqui focar outros problemas de saúde, o fundo da questão pertinente para mim tem apenas a haver com os cuidados de saúde oral que (não) me foram prestados, os quais hoje muito questiono e que não posso precisar neste momento quanto me afectaram e que me estão a marcar e vão-me marcar definitivamente para o resto da minha vida, tanto em termos físicos como psicológicos. Sei que Vossas Excelências, com poder de tomadas de decisões e, portanto, com claras responsabilidades em termos de políticas de saúde oral seguidas em Portugal, pelo menos a parir de 1975, podem cuidadosamente analisar as minhas questões e prestarem-me correctamente as devidas respostas.
Tanto quando me lembro, sempre tive problemas de saúde oral – lembro-me perfeitamente de ainda andar no colo materno e já padecer de dores de dentes. Devo esclarecer de que os meus pais eram agricultores; o meu pai é analfabeto e a minha mãe não completou a instrução primária; a minha infância foi sempre no interior, longe de centros urbanos e de uma melhor assistência médica. Infelizmente faltou-me, já naquela época, a prestação inicial de cuidados de saúde oral.
Vivi com a minha família numa pequena vila do interior do Alentejo: Alandroal - aí fui inscrito no Centro de Saúde local, onde foi exactamente que obtive os primeiros cuidados de saúde orais. Então passo a explicar como funcionava: sei que fui indicado pelo médico de família de então (finais dos anos setenta) para a consulta de “dentista” – ao Centro de Saúde do Alandroal lembro-me que se deslocava um “dentista” de Elvas. Geralmente existiam doze a quinze pessoas para serem atendidos numa manhã; logo que o tal dentista chegava, vá de formar uma fila indiana e toca de tomar uma injecção (anestesia) – acho que a mesma seringa servia para injectar toda a gente.
Logo depois começam as extracções … Não me lembro de quaisquer outros tipos de consulta ali praticados; unicamente faziam-se ali extracções (nada de obturações, limpezas ou outro tipo de tratamentos). Ao fim de duas horas já estavam todos “tratados” e lá se ia embora o “dentista”.
Teria eu os meus doze ou treze anos; os tratamentos que o tal dentista me fez foram unicamente de extrair dentes – nunca fiz um raio X ou qualquer outro tipo de tratamento oral. Se ao fim de dez minutos não conseguisse extrair-me uma raiz ou um dente, o “dentista” marcava-me uma nova consulta para oito ou quinze dias depois; assim, uma raiz mais difícil de extrair demorava, por vezes, três ou quatro “sessões”, ou seja, mais de um mês para ser extraída.
Não sei exactamente porque acabei cansado de tanto lá ir e nunca ter terminado o tratamento (que consistia unicamente em fazer extracções); também nunca vi que o tal “dentista” fizesse ou tivesse qualquer registo escrito dos tratamentos que fazia – era todo junto, quer se tratasse de crianças, adultos ou idosos. Entretanto, a partir de 1980 comecei a sofrer de zumbidos que, infelizmente, ainda hoje residem na minha cabeça, 24 horas por dia, 365 dias por ano (não sei até que ponto os mesmos terão sido originados pelos tratamentos feitos pelo dito “dentista”; infelizmente percorri por muitos especialistas de OTR e neurologia mas nem um só conseguiu suprimir o sintoma que me provoca os zumbidos).
Quando fiz quinze anos, constatei que os meus amigos da minha idade tinham os dentes tratados - vai daí e pedi aos meus pais para me deixarem ir a Évora tentar resolver o problema dos meus dentes.
Dirigi-me ao Hospital Distrital de Évora; na recepção do Hospital disseram-me logo de que não havia vagas para a consulta de estomatologia (ou odontologia). Lembro-me perfeitamente que depois ainda me dirigi ao sector das consultas e cheguei a entrar no consultório onde estavam instalados os equipamentos de consultas de estomatologia, mas não se encontrava aí ninguém.
Também fui a um “dentista” que trabalhava na rua dos “Arcos” em Évora; infelizmente, acho que cometi o maior erro da minha vida, pois o “dentista” que me atendeu disse-me que tinha de fazer mais extracções, antes de pudesse fazer-me um tratamento de limpeza aos dentes … Possivelmente por todos os traumas que já tinha passado no Centro de Saúde do Alandroal, não quis então fazer mais extracções.
Entrei para a Universidade de Lisboa, fruto de uma bolsa de estudo.
Só consegui entrar para a consulta de estomatologia dos Serviços Médico-Sociais da Universidade de Lisboa quando já andava no 4º ano da Universidade; infelizmente, demasiado tarde para ser tratado como deveria ter sido logo desde a infância.
Como consequência, sofri o maior traumatismo de sempre na minha vida, ao ter de ser obrigado a usar prótese dentária – algo que teria ainda sido possível evitar, penso eu, se os médicos que me atenderam desde a infância tivessem tido a gentileza de quererem fazer o devido caso da minha saúde.
Hoje tenho a plena consequência de que todo pelo que passei, e sobretudo as marcas que vou ter que carregar pelo resto da minha vida, ficam a dever-se, em grande parte, pela forma de como nunca ninguém da área da saúde me soube tratar como deveria ter sido tratado; julgo que bastava um pouco de humildade e de bom senso por parte de todas as entidades que já referi para que eu não tivesse caído naquilo que hoje são marcas físicas e psicológicas que terei, infelizmente, de suportar pelo resto da minha vida.
Gostaria de formular várias questões, mas não quero que venham a cair num saco roto e que a “culpa” (a existir) morra simplesmente solteira, quando me devolvem respostas a dizer “Olhe, quem pode responder às suas questões é a entidade tal e tal …”. O meu objectivo é muito simples: conseguir que jamais em Portugal outro jovem seja vítima de tanto desprezo pelos cuidados de saúde que se prestam pelas várias entidades de saúde no nosso país (não sabem os remorsos que tenho actualmente quando me cruzo, quase diariamente, com pré-adolescentes e jovens que, na sua idade de inocência, confrontam-se já com adiantadas cáries dentárias ou, quando me falam, mostraram a falta de dentes, pese embora a sua tenra idade – que futuro terão, em termos de felicidade, estas pessoas? Será que vão passar pelo mesmo calvário que eu ? Quantos adultos, tendo consciência dos factos, vão continuar a enterrar a cabeça na areia e ignorar o sofrimento destas crianças e jovens para o resto das suas vidas ?).
Não quero pensar que, se eu fosse filho de algum presidente da república, ministro, procurador-geral, director-geral de qualquer organismo público, presidente do Conselho de Administração ou Director-Clínico de algum Hospital Central, militar de topo de carreira, ilustre senhor conhecedor de leis ou de algum empresário, teria tido todos os cuidados e tratamentos necessários ao longo da minha infância e adolescência. É algo que, pura e simplesmente, não quero pensar que fosse possível ocorrer em Portugal …
Assim sendo, tomar pleno conhecimento dos implicados e dos responsáveis pelas consequências que hoje tenho que suportar é a única forma de conseguir algum equilíbrio emocional e conseguir travar a linda batalha que é a vida; não quero de forma alguma medir os efeitos que padeci, padeço e padecerei para sempre por simplesmente não ter um sorriso natural normal, nem tão pouco posso pensar e reflectir no que isso implicou para mim nos relacionamentos interpessoais e afectivos com as outras pessoas. Também não estou em condições de prever todos os reflexos que terei futuramente na minha saúde pelos cuidados de saúde que (não) tive e que, mais tarde ou mais cedo, serão reflexo directo da forma como fui tratado (desengane-se quem quer que seja que agora, como adulto, já não sou tão ingénuo como fui na infância e adolescência; tenho a certeza perfeita que no futuro irei ser confrontado com doenças resultantes directamente pelo aquilo que passei e que não me deram como deveriam ter dado, em termos de cuidados de saúde).
Por outro lado, espero que eu tenha sido apenas o vestígio do desprezo do serviço nacional de saúde pelos utentes, sobretudo pelas crianças e jovens no caso da saúde oral, e que a partir de hoje todos tenhamos direito a um simples lindo sorriso, sem medo de nos vermos ao espelho. Felizmente isso é possível – está nas mãos de quem quer mandar ou governar sobre as outras pessoas.
Mas jamais irei descansar enquanto não me sentir bem comigo próprio; sei que o tempo não volta atrás e aquilo que eu queria para mim hoje é impossível acontecer. Mas pelo menos quero estar bem psicologicamente comigo próprio; tal só será possível no dia em que encontrar todas as respostas aos meus “porquê eu?”. São questões que eu quero tirar por completo: porquê comigo e porque razão ? Qual o mal que eu fiz ao mundo para ser assim vítima ?
Deixo uma lista de questões que eu quero ver respondidas e esclarecidas de uma vez por todas, sem subterfúgios ou respostas indirectas e inconclusivas. As pessoas existem, assumem cargos e têm de ser plenamente responsabilizadas pelas funções que desempenham ou desempenharam (actualmente, à um ano, à cinco anos ou à vinte anos atrás). Tenho todo e o pleno direito de ver esclarecidas as minhas dúvidas e de saber porquê que essas coisas aconteceram comigo.
Não quero recompensas monetárias ou que alguém vá para a cadeia por ter faltado à prestação de cuidados que deveria ter tido comigo; quero, isso sim, que me diga directamente a mim e assuma publicamente a forma como respondeu-me, em tempo útil, aos meus pedidos de tratamento.
Ficam aqui enumeradas as minhas questões; espero que as respostas completamente esclarecedoras, surjam depressa e que sejam publicas; só assim terei algum conforto psicológico e tirarei da consciência o pesado fardo que pesa sobre mim próprio e, pelo menos, fazer com que jamais nenhuma criança ou adolescente assim seja tratado em Portugal.
1.-Quem foi o “dentista” que prestou serviço no Centro de Saúde do Alandroal nos finais dos anos setenta e durante os anos oitenta ?
2.-Qual a formação específica (académica – universidade frequentada; profissional – inscrição na Ordem dos médicos ou dentistas) que o tal “dentista” tinha para tratar crianças e jovens ?
3.-Qual a autoridade oficial que determinou que esse tal dentista prestasse serviço no referido Centro de Saúde ?
4.-Qual a instituição que controlava todos os tratamentos efectuados por esse “dentista” ?
5.-Como posso ter hoje acesso ao meu processo pessoal que esse tal “dentista” deveria ter sobre mim ? (Faço questão hoje, de forma pertinente, de ter acesso por completo a todos os relatórios que esse “dentista” tenha elaborado sobre mim)
6.-Quem era o director clínico no Centro de Saúde do Alandroal no período em que o tal “dentista” ali deu consultas ?
7.-Quem era o Director Clínico do Hospital Distrital de Évora nos anos 80 ?
8.-Quais os critérios seguidos no Hospital Distrital de Évora, durante os anos 80, para que crianças e jovens pudessem ser consultados na consulta de estomatologia ou odontologia ?
9.-Quais os critérios que determinavam o atendimento dos estudantes portugueses bolseiros nas consultas de estomatologia ou odontologia dos serviços Médico-Sociais da Universidade de Lisboa ?
10.-Qual a legislação em vigor em Portugal, a partir de 1975, no que se refere à saúde escolar ? (Lembro-me uma vez que fui pedir este esclarecimento ao SASE em Lisboa, tendo então recebido a informação que Portugal tinha sido o segundo país do mundo a implantar a saúde escolar no sistema de ensino).
Fico grato de ver esclarecidas totalmente as minhas dúvidas; só serei inteiramente livre e estarei bem psicologicamente comigo próprio no dia em que ver tudo esclarecido e, sobretudo, quando me derem a certeza absoluta que jamais outra criança ou jovem em Portugal será negligenciado, em termos de saúde oral. Porque, se há algum sofrimento nisto tudo, já ninguém me pode tirar.
Porque o sorriso também faz bem à saúde.
Bem-haja.
* * *
O reletório está feito; a cada um pede-se que assuma as suas responsabilidades neste caso, a fim de a culpa não morrer solteira. Porque, afinal, ainda vivemos num estado de direito e porque estas coisas ainda acontecem em Portugal.
Gerofil

2 comentários:

Anónimo disse...

Ao cruzar-me com o seu blogue não posso seguir indiferente.
Como sabe o caminho é para a frente e não de ficar à espera que as "Excelências, com poder de tomadas de decisões e, portanto, com claras responsabilidades em termos de políticas de saúde oral seguidas em Portugal" lhe vão responder pelo passado.
Sabe bem que ainda hoje nem nos grandes centros a saúde pública dentária funciona quanto mais em meios pequenos como aquele de onde é originário, há falhas no privado quanto mais no estatal. Há que lutar por uma politica social eficaz e universal que integre saúde pública e privada, ambas com nível de excelência e com tabelas iguais. Todos temos de participar activamente para evoluir as mentalidades e mudar as politicas, e para isso é preciso mudar os politicos. Já que o seu ramo não é a saúde, pode sempre seguir a via da politica, escolha o caminho certo junte-se a outros e lute. Os técnicos de saúde esses já fazem a sua luta diária contra todas as adversidades que se lhes depara no dia-a-dia.
Quanto ao seu caso em particular, "entrou para a Universidade de Lisboa" mas não teve a sorte de conhecer a Faculdade de Medicina Dentária: http://www.fmd.ul.pt/comunidade/externa.htm , serviço à comunidade.
Mas nunca é tarde! Hoje há alternativas às tradionais próteses dentárias: Implantes dentários são peças em material biocompatível , titâneo (geralmente) que simulam as raízes dos dentes naturais. A sua principal importância é servir de suporte à prótese fixa quando não há dentes. Deixe que um técnico analise o seu caso. E continue a Sorrir... sempre sorrir!

helena disse...

Ao ler o comentario lamento informa-lo que o sistema de saude continua igual ou pior que a 34 anos atraz, pois tendo eu 2 filhos um com 6 e outro com 5 anos pedi a medica de famila um consulta de dentista exactamente para prevençaõ de caries e outros problemas que possam vir a existir, foi feito o pedido de marcação de consulta para o hospital de são jose em abril e ainda estou a espera de uma resposta estao-mos em agosto certo?