sexta-feira, 10 de setembro de 2010

482. Dentistas e líderes mundiais em saúde pública assinam compromisso para combater a cárie dentária no mundo

A cárie dentária é a doença crónica mais comum no planeta, afectando cerca de cinco mil milhões de pessoas, o equivalente a 80% da população mundial. Para solucionar esta questão, especialistas de todo o mundo estão-se a mobilizar, através de uma Aliança Global Por Um Futuro Livre de Cárie, para definir estratégias, metas e implantar programas que ajudem a combater a cárie no mundo.
Um passo importante nessa direcção foi dado durante o Congresso Mundial de Odontologia FDI 2010, que aconteceu este mês na cidade de Salvador (Brasil). Durante o evento, líderes mundiais em saúde oral assinaram um acordo para a implantação de programas abrangentes de prevenção e gestão da cárie no mundo. Entre os participantes estiveram representantes da Organização Mundial de Saúde (OMS), Organização Panamericana de Saúde, Federação Dentária Internacional (FDI), Associação Internacional de Pesquisa Dental (IADR) e a Associação Brasileira de Odontologia (ABO), bem como os principais especialistas em saúde dental e autoridades públicas do Brasil e de outros países.
A Aliança Global é formada por um grupo mundial de especialistas em odontologia e saúde pública que defendem a importância da cárie ser entendida como uma doença contínua que requer prevenção e controlo abrangentes para que a sua progressão seja interrompida no mundo e se possa caminhar em direcção a um futuro sem cárie.
Segundo Dr. Roberto Vianna professor associado da UFRJ e presidente da FDI, a cárie dentária é um problema global que causa efeitos nocivos à saúde, à sociedade e à economia. “Apesar dos progressos feitos em prevenção e tratamento, a cárie ainda é uma epidemia negligenciada em muitos países”, ressalta o especialista.
Acompanhando a tendência de mudanças nos padrões alimentares em todo o mundo, alguns países lutam para impedir o crescimento e a prevalência da cárie na população. Essas mudanças de hábitos resultam na diminuição dos cuidados com a saúde bucal, além de impactar em outras questões de saúde, reduzir a qualidade de vida, a auto-estima, a empregabilidade e a mobilidade social.
“Do ponto de vista económico, nos últimos anos, a incidência de cárie tem aumentado significantemente, ligada as desigualdades sociais, afectando a produtividade das pessoas e impactando o crescimento dos países”, assinala o especialista.
Como um dos primeiros passos, a Aliança Global prevê aumentar a consciencialização sobre o problema da cárie, inclusive sobre o seu impacto económico e social, por meio do lançamento de uma campanha de saúde pública. Esta campanha deverá intensificar o compromisso internacional por meio da assinatura formal de uma declaração de saúde pública e revelar ferramentas online que permitam uma nova abordagem para o problema.
A cárie é uma doença infecto-contagiosa que pode resultar na destruição e perda dos dentes, caso não seja tratada. É provocada pela proliferação de bactérias e outros factores determinantes, como resíduos alimentares que permanecem na boca. Uma das formas mais eficazes de evitar a cárie é a prevenção.
Novo recurso na internet para Profissionais e Comunidades – A primeira iniciativa realizada pela Aliança Global Por Um Futuro Livre de Cárie é um recurso online gratuito que oferece aos profissionais e comunidades, ferramentas baseadas em evidências e materiais de apoio (ex. estudos de caso, análises sistemáticas) para a acção local. A meta do website é oferecer subsídio para que comunidades, grupos e indivíduos comprometidos possam combater a cárie, além de ser uma plataforma para mobilizar recursos, compartilhar melhores práticas e entrar em contacto com outros stakeholders.
“Embora existam muitas ferramentas e fontes de informação para orientar no desenvolvimento de intervenções contra a cárie; nós aprovamos a análise baseada em evidências, pois ela nos ajudará a ter o sucesso, por meio do uso de ferramentas e tecnologias que optimizam a prevenção e administração da cárie” diz o Dr. Gilberto Pucca, Coordenador Nacional de Saúde Bucal do Ministério da Saúde do Brasil. “Nós esperamos adoptar esses recursos no Brasil à medida que trabalhamos com o Ministério da Saúde, a comunidade odontológica, e outros líderes, para garantir que as populações de todos os níveis económicos sejam beneficiadas”.
Acção Contínua de Saúde Pública – Como próxima acção, a Aliança Global quer continuar a estimular um diálogo com organizações mundiais de saúde, bem como executar campanhas a nível local. Os principais passos futuros incluem:
§ Até 2015, 90% das faculdades de odontologia e associações de dentistas deverão ter adoptado e promovido a “nova” abordagem de “cárie como um problema contínuo”, a fim de melhorar a sua prevenção e administração;
§ Até 2020, os membros regionais da Aliança Global Por Um Futuro Livre de Cárie deverão ter integrado, de forma localmente adequada, com sistemas de prevenção e administração da cárie, devidamente monitorizados.
§ Todas as crianças nascidas a partir do ano de 2026 não deverão ter cárie ao longo de toda a sua vida.
Aliança Global Por Um Futuro Livre de Cárie – A Aliança Global Por Um Futuro Livre de Cárie foi criada em colaboração com um painel mundial de especialistas em odontologia e saúde pública. Ela é patrocinada pela Colgate-Palmolive, que apoia a melhora da saúde bucal por meio de parcerias com profissionais de odontologia, governos e agências de Saúde Pública, e da gestão do projecto “Sorriso Saudável Futuro Brilhante”, iniciativa de educação em saúde bucal para crianças em todo o mundo. Em virtude da meta de estímulo da acção colaborativa global, a Aliança também busca parcerias com líderes globais e outros stakeholders em nível regional e local – incluindo líderes de países e comunidades, profissionais de saúde e odontologia, comunidades de política pública e educação e a população.
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Os resultados saídos da reunião da FDI devem repercutir-se sobre as linhas orientadoras e opções políticas de saúde pública dos vários governos. Torna-se imperioso que as autoridades portuguesas de saúde (Ministério da Saúde; Direcção – Geral de Saúde; Ministério da Educação) assumam claramente a cárie dentária como a principal doença infecto-contagiosa que afecta a população portuguesa e estabeleçam, de imediato, metas para o seu eficaz controlo e erradicação.Portugal não pode continuar a ser um parente pobre do terceiro – mundo na Europa, no que se refere aos cuidados de saúde oral prestados pelo Serviço Nacional de Saúde. É inadmissível que, comparativamente a Portugal, haja actualmente países pobres e subdesenvolvidos do Terceiro – Mundo a fazer mais e melhor saúde oral pelas suas populações.
É tempo de assumir claramente que Portugal tem todos os meios e recursos humanos e financeiros que possibilitem o controlo e a erradicação da cárie dentária; falta apenas a vontade politica para dar o passo certo nessa direcção.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

481. Pai do SNS pede outra medicina oral para Portugal

O socialista e fundador do Serviço Nacional da Saúde (SNS) António Arnaut gostaria que a fatia do Orçamento do Estado para 2011 (OE) para a saúde aumentasse e incidisse nos cuidados continuados e na medicina oral. A um mês e meio de o Governo apresentar a proposta do OE para 2011, António Arnaut diz à agência Lusa ambicionar que a verba para a saúde (cerca de 1/6 do OE, não chegando a nove mil milhões de euros) seja aumentada, mas não apenas para melhorar o SNS.
Ele tem de ser melhorado, mas pode ser melhorado independentemente das verbas porque há serviços que podem gastar menos e funcionar melhor, advoga. Para o histórico socialista, o aumento devia incidir no reforço da rede de cuidados continuados e paliativos, que já está espalhada pelo país, e na criação de uma outra de medicina oral, que praticamente não existe.Já existem os cheques dentistas para grávidas, crianças e idosos, mas deve-se caminhar para a criação de uma valência de saúde oral, que é muito importante, não apenas para ter dentes bonitos e funcionais, mas para evitar outro tipo doenças, defende.
Por outro lado, observa o antigo ministro dos Assuntos Sociais, no momento de crise que vivemos, o sector social tem de ser reforçado para compensar as desigualdades que agora se agravaram através do desemprego e de outras situações de precariedade.
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Estas sábias palavras ilustram o actual panorama desolador da saúde oral em Portugal, da responsabilidade dos últimos governos e com a completa conivência da Direcção – Geral de Saúde e, paralelamente, de grupos instalados com interesses no sector.
A drástica diferenciação em que hoje vivemos no acesso à medicina dentária entre a burguesia endinheirada e os ilustres governantes do aparelho estatal do regime, em oposição à esmagadora maioria da população votada ao desprezo e sem direitos, faz-nos lembrar que Portugal aproxima-se mais dos países pobres e subdesenvolvidos do que os seus parceiros da União Europeia, em termos de saúde oral.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

480. Portugal dá menos aos mais novos que maioria na OCDE

Relatório coloca Portugal entre os países desenvolvidos que menos investem nas crianças dos zero aos cinco anos. E, regra geral, os menores de 18 anos têm uma qualidade de vida abaixo da média da OCDE, devido a factores como a pobreza e os fracos níveis de ensino.
Portugal é um dos países da OCDE que menos investimentos públicos canalizam para as crianças até aos cinco anos. O dado consta de um relatório - Childhood Decides -, divulgado por esta organização, do qual se conclui que, regra geral, a qualidade de vida dos menores no nosso País está muito abaixo da média do mundo desenvolvido.
No que diz respeito aos indicadores do investimento público por cada menor de 18 anos, Portugal surge num grupo de países que investe entre 60 e 70 mil euros por ano. Valores que, sendo dos mais baixos, não serão particularmente negativos tendo em conta o rendimento per capita.
Os problemas surgem quando se analisa a proporção desse investimento que é canalizada para a franja dos zero aos cinco anos. Precisamente aquela idade em que, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, mais decisivo pode ser o investimento para o futuro destas crianças. Sobretudo quando estão em causa situações de pobreza.
Neste capítulo - no qual nenhum país tem um desempenho que a OCDE considere aceitável - Portugal aparece entre os que menos investem: das verbas públicas para as crianças, pouco mais de 20% chega aos menores de seis anos.
Os dados, como assume a OCDE, são baseados no cruzamento de um conjunto alargado de indicadores, nem todos recentes. Medidas do actual Governo - como os reforços da Acção Social Escolar e as verbas prometidas para novos jardins-de-infância - não estarão ainda reflectidas na contabilidade. Mas também foram considerados aspectos como os valores dos abonos de família e os incentivos fiscais às famílias, nos quais os avanços portugueses têm sido tímidos na comparação.
De resto, quando os menores de 18 anos portugueses são vistos à luz de um quadro mais abrangente - que a OCDE define como "bem-estar" ou "qualidade de vida" das crianças - as conclusões continuam preocupantes.
No total de seis itens comparados, referentes a três grandes áreas - Padrões de Vida, Educação e Protecção - a situação das crianças portuguesas só é claramente positiva ao nível dos comportamentos de risco. Baixas taxas de consumo de álcool e de tabaco entre os menores contribuem para um sexto lugar entre 30 países.
Mas em todas as restantes categorias, Portugal surge abaixo de metade da tabela. No "bem-estar material" é 25.º, ao nível do "bem-estar educacional", 26º, e em termos de "qualidade de vida na escola" surge em 21.º lugar.
A justificar estes baixos desempenhos estão índices como os 16,6% de crianças a viver em agregados familiares pobres. Um valor que, mesmo calculado tendo em conta os rendimentos médios de cada país, só permite a Portugal superar a Espanha, os Estados Unidos, a Polónia, o México e a Turquia. Os crónicos maus resultados dos alunos portugueses nas comparações internacionais são outro contributo negativo.
Os diferentes indicadores dão ainda conta de um Portugal recheado de anacronismos, em que 85% das crianças crescem com os dois pais mas um terço vive em condições de habitação abaixo do desejável, onde há pouco mortes à nascença mas muitas - sobretudo de rapazes - na adolescência.
DN Portugal

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

479. Novo tratamento promete eliminar cáries sem o uso de brocas

Um novo procedimento chamado Kariesinfiltration, da empresa DMG, promete tratar cáries sem a utilização de brocas. Mas ele pode ser usado apenas em alguns casos, como explica a diretora da DMG, Susanne Stegen. "O procedimento é eficaz no combate à cárie em estágio inicial, aquela que está no esmalte do dente e avançou no máximo até o primeiro terço da dentina. Tudo o que for mais profundo requer, infelizmente, a broca."
Normalmente o dentista tem duas opções de tratamento: na primeira ele faz uma aplicação de flúor no dente em questão e apela ao paciente para que tenha uma melhor higiene bucal. Depois é esperar para ver ser o pequeno defeito não se torna um buraco de verdade.
Ou então ele recorre logo à broca para eliminar a cárie ainda em estágio inicial. Nesse caso, porém, partes saudáveis do dente são eliminadas, como explica o dentista Ulrich Schiffner, da Clínica Universitária de Eppendorf . "Nesse caso o problema é que, em buracos que afetam apenas o esmalte do dente ou um pouquinho mais, é necessário primeiro retirar uma parte do dente para poder chegar até onde está a cárie."
Agora, o novo método oferece a possibilidade de preencher um buraco pequeno sem recorrer à broca e evitar a propagação da cárie para regiões mais profundas do dente. Primeiramente a camada mineral sobre a área defeituosa é eliminada com o uso de um gel, em seguida o novo material plástico, chamado de Icon, é aplicado ainda no estado líquido. Essa substância plástica penetra na matriz do esmalte, graças à capilaridade, e é então, como qualquer outro enchimento plástico, endurecida com luz.
O procedimento é voltado especialmente para cáries localizadas na região entre os dentes, mas também para pequenos defeitos em superfície lisa, como por exemplo em pacientes que usam aparelho.
Em toda a Alemanha existem aproximadamente seis mil profissionais que já aplicam o método Kariesinfiltration. O tratamento dura em média 20 minutos e custa entre 80 e 100 euros. O valor não é coberto pelos planos de saúde do país.
Os primeiros estudos clínicos com o Icon ainda não são conclusivos e baseiam-se, segundo Schiffner, num período de apenas 18 meses. "Esses estudos mostram que, em aproximadamente 75% das superfície dentárias tratadas, as cáries foram eliminadas."

terça-feira, 24 de agosto de 2010

478. Jovem autista espera há mais de um ano por uma cirurgia (II)

477. Jovem autista espera há mais de um ano por uma cirurgia (I)

Duarte aparentava ser um menino normal, mas aos 2 anos de idade foi-lhe diagnosticado autismo. O jovem tem agora 13 anos e está há mais de um à espera de ser operado no Hospital de Ponta Delgada. Entretanto, o quadro clínico de Duarte agrava-se a cada dia que passa.
O adolescente já não consegue mastigar os alimentos por ter os dentes quase todos cariados e não consegue ir a um médico dentista convencional. O hospital alega que o jovem está em lista de espera, mas o desespero da família começa a aumentar. A mãe do doente afirma que já tem de triturar todos os alimentos que o jovem ingere, e não tem médico de família, um factor que ainda atrasa mais o processo.
Desesperada, a mãe entregou uma carta do pediatra a solicitar a operação. A mulher já escreveu, inclusive, uma carta ao director da unidade de saúde a explicar toda a situação. Ir para um privado está fora de questão porque Fernanda Tomé não consegue sustentar os custos. Para já, a data prevista para a operação é a última semana de Setembro.
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À senhora Ministra da Saúde, ao senhor Director – Geral de Saúde e à Ordem dos Médicos Dentistas: vejam aqui os efeitos da ridícula política de saúde oral que protagonizam para o nosso país. Este é um exemplo da flagrante violação dos direitos humanos em Portugal quando uma criança necessita de cuidados médicos.
Um caso que merece ser denunciado a nível internacional.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

476. Quatro anos de SAÚDE ORAL

Completa-se hoje quatro anos que se publica o Saúde Oral. Ao longo destes quatro anos foram aqui tratados os mais variadíssimos assuntos relacionados com a saúde oral em Portugal; infelizmente, ainda há imenso trabalho por diante, pois o balanço de quatro anos sobre a saúde oral em Portugal pouco de positivo trouxe para a sociedade, e muito menos para os mais pobres e os excluídos.
O Saúde Oral procurou estar sempre actualizado, informando os seus leitores sobre as ultimas novidades relativas à saúde oral no nosso país. Mantendo uma linha editorial independente, o Saúde Oral procurou estar sempre na defesa da sociedade civil, nunca alinhando por interesses cooperativistas, não deu a mão às desastrosas políticas seguidas pelos vários governos e pela Direcção – Geral de Saúde nesta área, e não foi protagonista dos grandes grupos económicos com grandes interesses directos no sector.
O Saúde Oral pautou-se pelo direito à indignação e à frontalidade, sempre que estive em causa os direitos dos cidadãos consagrados na Constituição da República Portuguesa.
Os atropelos constantes aos direitos consagrados na Constituição da República, no acesso a cuidados de saúde, protagonizados nas políticas saídas do Ministério da Saúde, por vezes alinhadas por interesses cooperativistas dentro do próprio sector, aliado à ineficácia dos poderes amorfos da Assembleia da República e do Presidente da República, permitem a violação sistemática e demagógica dos direitos fundamentais do homem, incluindo os consagrados na Carta dos Direitos da Criança, negando-lhes um dos mais elementares direitos humanos: o acesso a cuidados de saúde.
Num país onde a formação dos médicos dentistas é feita à custa de todos os portugueses que trabalham e pagam impostos, continuam-se a utilizar esquemas que proíbem o acesso de cuidados de medicina dentária à esmagadora maioria da população. Os cuidados de saúde oral são hoje quase exclusivamente um direito dos políticos que ocupam cargos do poder central e da burguesia; a classe trabalhadora terá ainda muito que lutar para conseguir igualdade de direitos nesta atroz sociedade saída do 25 de Abril de 1974.
A vergonha demagógica exercida por aqueles que querem que o sistema continue como está vão ter o Saúde Oral por companhia durante muitos mais anos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

475. Pingo Doce ajuda Câmara a tratar saúde oral dos munícipes

O projeto “VRSA a Sorrir” foi lançado pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António (VRSA) no final do ano passado e até à data já financiou tratamentos dentários a 85 vila-realenses.
Desde o momento em que aquela autarquia anunciou um protocolo com seis clínicas do concelho e o financiamento dos tratamentos de saúde oral à população mais carenciada que o número de inscritos não pára de crescer. Atualmente já são cerca de 1500 as pessoas que esperam ser chamadas.
“Nem todas as pessoas inscritas correspondem aos critérios exigidos pela autarquia, os quais foram estabelecidos em função das condições económicas de cada agregado familiar. Neste sentido, a Câmara continua a fazer as respetivas análises sociais para saber quais as pessoas que estão em condições de integrar o programa”, explica o presidente da Câmara Municipal de VRSA.
Depois do protocolo celebrado com seis dentistas do concelho, na última semana o projeto recebeu um novo fôlego financeiro através do Pingo Doce, que colaborou com 150 mil euros ao abrigo do mecenato social.“É claramente um reforço financeiro muito importante e um gesto de louvar. Temos uma dotação financeira de 300 mil euros para este ano e só com este contributo conseguimos financiar o projeto em 50 por cento”, explicou Luís Gomes.
No entanto, o autarca reconhece que o orçamento necessário para resolver definitivamente os problemas de saúde oral dos munícipes “não tem limites” e “não se consegue definir”, porque “há pessoas a inscreverem-se continuamente”.
Hélder Jacinto, do Pingo Doce, recordou que se trata do primeiro apoio daquela cadeia de supermercados para a área da medicina dentária e saúde oral. Em relação à iniciativa da Câmara de Vila Real de Santo António, aquele responsável sublinhou que “é um exemplo que deve ser seguido por outras autarquias”.
JA, Jornal do Algarve
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Aqui está um exemplo do que deve ser as boas práticas no que se refere ao patrocínio de iniciativas com vista à promoção da saúde oral das populações.
Projectos em que as entidades promotoras do mecenato são as mesmas que gerem os recursos e “contratam” dentistas para mostrarem trabalho não têm cabimento na promoção real da saúde da população, visando muitas vezes esquemas de fuga aos impostos e enriquecimento ilícito.É necessário e fundamental separar entidades promotoras do mecenato das entidades que gerem os recursos disponíveis; por sua vez, aos médicos dentistas compete-lhes apenas a execução das intervenções clínicas, sendo devidamente compensados pelo seu trabalho.
A Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, o Pingo Doce e os dentistas que aderiram a este projecto estão de parabéns; assim haja outras autarquias do país a copiar este exemplo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

474. A degradação perniciosa das condições de trabalho dos médicos dentistas em Portugal

Médicos Dentistas (M/F) Zona de Leiria
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ESTA OFERTA JÁ NÃO ESTÁ ACTIVA
A Sucesso24horas, empresa de Gestão de Recursos Humanos especializada na prestação de serviços na área da saúde, presente em todo o território nacional e Regiões Autónomas, faz recrutamento e Selecção de Profissionais da Saúde para Estabelecimentos Prisionais, em escalas de Serviços de Urgência Hospitalares, Centros de Saúde e outras entidades, no sentido de colmatar necessidades existentes.
Estamos neste momento a recrutar Médicos Dentistas(M/F) para Estabelecimento Prisional na Zona de Leiria, para substituição de Férias com o seguinte perfil: licenciatura em Medicina Dentária (cédula profissional válida); disponibilidade de trabalhar em diversos horários (part-time) e disponibilidade para exercer funções através de recibos verdes.
Oferece-se: remuneração compatível com as funções e garantia de projecto até Dezembro de 2010, com possibilidade de renovação. Se tem o perfil pretendido, envie por favor o seu CV para: ssoares@sucesso24horas.com
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Qual será a reacção da Ordem dos Médicos Dentistas a esta subalternização das condições de trabalho impostas pelo Estado, violando direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

473. Diário Digital / LUSA entrevistam Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas (Parte 2: Análise da entrevista)

A Ordem dos Médicos Dentistas considera excessivas as vagas disponíveis no Ensino Superior para os cursos de medicina dentária em Portugal, justificando o facto de a actividade ser exercida quase exclusivamente pelo sector privado, o rácio de profissionais em Portugal estar acima da média europeia e a idade relativamente jovem dos actuais médicos dentistas.
Efectivamente, um dos grandes bloqueios ao exercício da actividade da medicina dentária em Portugal é o facto de estar concentrada no sector privado, que impõe preços exorbitantes por qualquer tratamento e tornando o seu acesso restrito a uma escassa percentagem da população que tem posses económicas; a grande maioria dos portugueses continua simplesmente impossibilitada em ter acesso à medicina dentária. Talvez fosse por aqui que a Ordem dos Médicos Dentistas deveria actuar, pactuando pelo respeito da Constituição da República Portuguesa e exigindo a integração da medicina oral no Serviço Nacional de Saúde, em perfeita concorrência com o sector privado. Todos teriam a ganhar:
- maior saída profissional para os jovens médicos dentistas;
- maior concorrência entre o sector público e o sector privado, baixando consideravelmente os actuais preços onerosos praticados pelas clínicas e consultórios e melhorando consideravelmente a qualidade dos serviços prestados;
- maior acesso da população a cuidados de saúde oral, traduzido por uma significativa melhoria da saúde oral da população portuguesa.
O facto do rácio de profissionais em Portugal estar acima da média europeia constitui uma mais-valia que ainda não foi traduzida em termos de ganhos para a população, uma vez que os estudos demonstram um significativo desfasamento dos indicadores de saúde oral dos portugueses relativamente aos outros países europeus; assim sendo, existe ainda uma larga lacuna de cuidados de saúde oral a prestar à população portuguesa que pode absorver facilmente todos os profissionais existentes.
A existência de médicos dentistas com idade ainda relativamente jovem é benéfica para o país; pessoas jovens estão sempre mais disponíveis para fazer mais e melhor pela saúde oral da população do nosso país. Cabe-lhes a eles abrir novas perspectivas da prestação de cuidados de saúde oral à população, ultrapassando obstáculos e a inércia de quem já se encontra instalado na área há muito tempo e que apresenta relutância em adaptações, quebrando interesses instalados no sector e colocando a medicina dentária ao serviço daqueles que efectivamente mais precisam de ser atendidos. Tenha a Ordem dos Médicos Dentistas capacidade em investir nestes jovens médicos dentistas e procurar dinamizar o sector da saúde oral no país, apostando em iniciativas inovadoras que valorizem os jovens médicos dentistas e que sejam benéficas para a população – o cooperativismo e o sindicalismo, por exemplo, podem ser vias alternativas que defendam os interesses dos jovens dentistas contra os abusos e explorações dos grandes grupos económicos da área da saúde e do Ministério da Saúde.
Se há largas centenas de dentistas portugueses emigrados, então é porque são-lhe oferecidas condições de trabalho dignificantes que compensa a sua ida para o estrangeiro; a Ordem dos Médicos Dentistas e as outras organizações relacionadas com a saúde oral devem lutar e exigir também a pratica dessas mesmas condições em Portugal.
A Ordem dos Médicos Dentistas deverá providenciar, em primeiro lugar, o acesso de todos os portugueses a cuidados de saúde oral em igualdade de circunstâncias, tanto no sector público como no sector privado; a limitação das vagas para medicina dentária nunca deverá ser prioritário enquanto a própria Ordem dos Médicos Dentistas reconhecer que uma larga maioria da população portuguesa continua impossibilitada em ter acesso a cuidados de saúde oral. Os actuais confrangimentos em termos de saídas profissionais no nosso país residem na falta de regulamentação e na quase completa falta de fiscalização activa do exercício da actividade de medicina dentária no nosso país, permitindo-se que as multinacionais, os grandes grupos económicos e as seguradoras façam toda a espécie de exploração da mão-de-obra, nem qualquer garantia de saúde para os clientes.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

472. “A doença mais prevalente na sociedade portuguesa é a cárie dentária”

Carlos Pereira, de 46 anos, doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, médico dentista, professor na Escola Superior de Saúde de Viseu (ESSV), coordenou um estudo sobre a saúde oral dos jovens da região Centro. Natural de Sátão, começou a sua vida profissional pela enfermagem, mas a paixão pela saúde oral foi mais forte, tornando-se o primeiro doutorado na ESSV. Escolheu Viseu para viver, mas optou pela vila natal, para abrir um consultório. Já sabia que as bocas da maioria dos portugueses é um problema grave, mas os resultados do estudo que coordenou ainda o conseguiram surpreender: “É espantoso que 20 por cento dos adolescentes não fazem ideia do que é o fio dentário”.
-Como surge a oportunidade de realizar este estudo com os jovens entre os 12 e os 18 anos da região Centro?
-A ideia de desenvolver este estudo surgiu da inexistência de evidências, de provas, de dados concretos sobre este fenómeno que estudámos. Não tínhamos dados relativos à população e, no caso concreto dos adolescentes, sobre a forma como estes realizavam a sua higiene oral, o número de vezes que visitavam o médico dentista e, por desconhecermos, foi essa a motivação mais importante.
-A falta de dados concretos era uma barreira?
-É impossível planear cuidados, planear uma assistência fundamentada se não conhecermos os dados mais elementares desse fenómeno, sobre o qual podemos intervir.
-Partiram com a ideia de que a situação não era boa e é preciso concretizar no terreno?-Tínhamos a noção que o cenário não era animador. Isto para dizer que o cenário não nos surpreendeu. Quem faz clínica depara-se todos os dias com esta questão da higiene oral realizada de uma maneira menos correcta. Daí até planeámos o estudo e realizá-lo foi um passo.
-O estudo abrangeu os seis distritos da região Centro (Aveiro, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Coimbra e Leiria)?
-Fizemos uma abordagem maioritariamente no distrito de Viseu e, depois realizámos estudos em outros distritos.
-Não será abusivo dizer que é um estudo da região Centro?-Não. Todos os distritos da região Centro foram visitados. Se me perguntar: Foi feito de modo equitativo? Não é verdade, a região onde incidimos mais foi o distrito de Viseu, onde incluímos todas as escolas públicas do 2º e 3º Ciclos e secundário, excepto o 1º Ciclo e a Pré-escola.
-O estudo foi feito em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de Medicina do Porto. Porquê esta parceria?-Eu fiz a minha formação pós-graduada, nomeadamente o mestrado e o doutoramento na Faculdade de Medicina do Porto. Daí ficaram amizades, ficaram contactos de investigação, o meu gosto pela investigação surgiu aquando a minha passagem pelo Porto. Um outro aspecto é que um dos tópicos apresentado [no estudo], a questão dos comportamentos da saúde oral em adolescentes da região Centro, foi estudado pelo dr. Nélio Veiga, meu aluno de mestrado e que fez o mestrado em Saúde Pública na Faculdade de Medicina do Porto. Esta espécie de dois em um faz da universidade também legitimamente co-autora deste estudo.
-Essa ligação privilegiada abre caminho a outros estudos na Escola Superior de Saúde de Viseu?-Este estudo não é o primeiro feito em parceria com a Faculdade de Medicina do Porto. Fizemos um trabalho sobre a prevalência da obesidade no distrito de Viseu, também em parceria com a Faculdade. Também há uns anos atrás, e estou-me a lembrar de trabalhos com maior visibilidade, realizámos um outro trabalho sobre comportamentos sexuais em adolescentes.
-Há outros em desenvolvimento?-Há outros na forja. Um com a Escola de Saúde da Universidade de Aveiro que estamos a realizar, mas ainda é precoce levantar o véu.
-Este tipo de trabalhos é uma constante na Escola Superior de Saúde de Viseu?-Sim. Na investigação que os nossos docentes têm que realizar no âmbito da sua formação pós-graduada, tem havido o cuidado por parte dos seus orientadores, para que essa investigação possa ser diferente daquela que é feita com o propósito de defender uma tese.
-Diferente em que aspecto?-A investigação só faz sentido se se transformar em conhecimento, e conhecimento é estar ao serviço do cidadão, de todos quantos precisam de consultar a investigação científica, consultar as provas para prestar cuidados. Penso que houve da nossa parte o cuidado de fazer investigação que possa dar resposta concreta a questões concretas das populações.
-Quais são os resultados genéricos do estudo que nos trouxe a esta conversa?-Em termos de conclusão podemos dizer que um em cada cinco adolescentes não escova os dentes. Estamos a falar de 20 por cento.
-Isso é mau ou muito mau?-É péssimo. O desejável era que desde tenra idade seja incutido nas crianças hábitos de higiene oral, que passam por escovar os dentes, escovar a língua, escovar as gengivas, no fundo, ter uma higiene cuidada com a boca e dentes. Depois, dizer que só um quatro dos adolescentes (25 por cento) escova os dentes duas ou mais vezes por dia, admitindo que a escovagem duas vezes por dia é o mínimo. Outra nota que importa reter é que, se escovarmos os dentes duas ou mais vezes por dia, a utilização do fio dentário pelo menos uma vez por dia, e a visita regular ao médico dentista, duas vezes por ano, chegamos à conclusão que menos de dois por cento dos nossos adolescentes têm hábitos de saúde oral correctos. Uma outra nota, para dizer que é espantoso que 20 por cento dos adolescentes não fazem ideia do que é o fio dentário.
-O que mais o surpreendeu?-Esta questão do fio dentário.
-Já encontrou razões para isso?-Provavelmente nunca ouviram falar, e admito que não acontecerá em todas as consultas esse ensinamento. Muitas vezes, há questões primárias, mais preocupantes e mais emergentes. Se a pessoa vai ao médico porque lhe dói o dente, parece oportuno estar a falar de fio dentário?
-Os resultados foram piores do que os esperados?-Acho que sim. Estamos a falar de jovens entre os 12 e os 18 anos e esperava que estivessem mais informados. Ainda me falta uma quinta nota [das conclusões do estudo] para dizer que os jovens provenientes de classes sociais menos escolarizadas – avaliada tendo por base a escolaridade que o pai ou a mãe tinham – eram aqueles que tinham pior higiene oral, que visitavam menos o médico dentista, era onde estava a maior prevalência de adolescentes que não conheciam o fim dentário.
-Também temos que juntar aqui uma questão financeira dos pais?-Essa é outra questão. Estas questões da saúde agregam, ou seja, não se tem conhecimento, é-se pobre, não se vai aos cuidados de saúde, não se tem informação sobre onde recorrer, etc, etc. Tudo isto é uma espécie de bola de neve quando se fala de escolaridade.
-A saúde oral é também um problema social?-Se vos perguntar qual é a doença mais frequente na sociedade portuguesa, seguramente vão-me dizer que é o enfarte miocárdio, o cancro ou o AVC. Mas se formos ver os números frios como eles devem ser vistos, a doença mais prevalente na sociedade portuguesa é a cárie dentária. Esquecemo-nos que a cárie dentária é uma doença com uma componente infecciosa grande. E se fizer a questão: Quem é que alguma vez teve cárie dentária? Provavelmente 99,9 por cento ou têm ou já tiveram.
-Como é que se faz uma boa escovagem da boca?-Numa das minhas passagens pelas Pousadas de juventude, um dia partilhei um espaço com um norueguês e, na higiene matinal, quando me dirigi aos balneários deparei que o indivíduo estava a tratar da higiene oral. Eu cheguei, fiz a minha higiene oral, desfiz a barba, tomei banho e, quando regressei á base, ele continuava com a sua higiene oral. Isto espelha bem a importância que não damos às questões da higiene oral e outros dão. Depois das refeições, seria sempre conveniente fazer a higiene oral, de manhã e à noite é o mínimo exigível. Utilizar uma escova adequada que deve ser substituída de três em três meses.
-O que é uma escova adequada?-Deve ser uma escova macia, é um princípio.
-O mercado tem boas escovas?-Sim, sim. Quando me perguntam se devem usar escova manual ou eléctrica, a resposta que dou é: usem bem. O médico deve indicar a escova adequada em cada caso.
-E as pastas dentífricas?-As marcas [do mercado], são marcas com a quantidade de flúor preconizada pela Organização Mundial de Saúde.
-Os estudo aponta para que os rapazes sejam mais desleixados que as raparigas. Há alguma explicação para isso?-Não tenho explicação.
-Isto devia ser alvo de um estudo individualizado?-Quando se faz investigação, seja em que área for, sempre que no mesmo estudo analisamos homens e mulheres, uma boa prática de investigação manda que separemos homens para um lado e mulheres para outro, sem nenhum tipo de preconceito ou de interpretações. Ser homem é ser diferente de mulher e a explicação dos problemas tem uma relação com o sexo.
-Quando é que os jovens vão ao dentista?-Os que pertencem a classes económicas mais favorecidas procuram o médico dentista com alguma regularidade e de uma forma mais rotineira.
-E cedo?-Sim. O Cheque Dentista abriu algumas portas. Temos crianças com quatro/cinco anos ou até mais precocemente. A primeira visita devia ser o mais cedo possível para que a criança brincasse com o médico dentista e percebesse que este fantasma tem tendência a desaparecer.
-O programa Cheque Dentista está a funcionar? Já há algumas críticas.-Acredito que não esteja a funcionar por feição e eu próprio já disse que não chega a todas as crianças, mas o pouco que se faça de bom é sempre bem vindo. A mensagem vai passando.
-O que é que se pode fazer mais pela boca dos jovens?-Eu penso que está tão mal que o pouco que se possa fazer é bem vindo. Tenho a certeza que uma escova e uma pasta de dentes custam uma décima parte do que é necessário gastar na hora de fazer uma reabilitação oral.
-Está a falar da falha da prevenção?-Naturalmente. Na esmagadora maioria dos casos, se o doente chega a esse estado é porque a prevenção primária falhou.
-O problema não é só dos jovens, os idosos é uma faixa etária complicada. Concorda?-Há uma fatia dos nossos idosos que chamar saúde oral [ao que fazem] é um atentado. Que saúde terá alguém que tem dores, que psicologicamente e socialmente se sente afectado? Isto é mais importante do que possamos pensar.
-Tratar os dentes em Portugal é muito caro. Isso é também um entrave à saúde oral dos portugueses?-Temos que ser realistas, há muitas pessoas que não conseguem pagar uma consulta.
-Aí devia entrar o Serviço Nacional de Saúde.-Não acredito que com os PEC’s isso possa vir a acontecer, mas facilitava o acesso a essas classes mais desfavorecidas que não tem como pagar. Devo confessar que deparamos com pessoas que têm dificuldade em pagar a simples consulta de 40 euros ou 50 euros.
-Há dentistas a mais em Portugal?-Eu costumo dizer aos meus alunos que este mundo hoje, como eu o vejo, deve ser entendido numa lógica de aldeia global de que tanto se fala. Temos que rodar. As pessoas têm que ter vontade de sair, de dar o salto. Visto por aí, há oportunidades de sucesso em vários locais da Europa e do mundo. Se começam a ser muitos para nós? Se calhar sim, mas há outras áreas onde começa a haver mais oferta e menos procura.
-Qual é a relação da saúde da boca com a nossa saúde?-Já falámos da obesidade, da má nutrição… os dentes não servem só para mastigar, servem para várias coisas, até para sorrir. Quem não tem dentes com os quais consiga fazer uma mastigação eficaz, naturalmente que isso vai-se repercutir-se em termos de digestão, os nutrientes não são absorvidos da forma mais eficaz e daí para baixo tudo pode acontecer: problemas gastrointestinais, digestivos, de mal absorção de alimentos, má nutrição. Depois, se pensarmos que uma boca mal cuidada é uma boca onde existem microrganismos das mais variadas espécies, esses microrganismos por si só podem ter relação com um conjunto de doenças, ao nível do coração, dos rins, do reumatismo articulado agudo, sinusite e todas as outras doenças que hoje em dia se sabe que têm uma relação directa. Acontece com alguma frequência aparecerem nos consultórios doentes com dores horríveis na face, na cabeça, dores de ouvidos, zumbidos, etc. E é frequente aparecerem, depois de serem consultados no otorrino, de serem vistos por um neurologista, por um psiquiatra e por colegas de outras especialidades. É impossível ter saúde, vista como bem-estar físico, mental e social, se não houver uma saúde oral adequada.
Jornal do Centro / Região de Viseu

segunda-feira, 26 de julho de 2010

471. Diário Digital / LUSA entrevistam Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas (Parte 1: A entrevista)

Ordem dos Médicos Dentistas
diz que há vagas em excesso
* * *
A Ordem dos Médicos Dentistas considerou hoje excessivas as vagas disponíveis no Ensino Superior, em virtude de o mercado de trabalho ser quase exclusivamente privado em Portugal, onde o rácio de profissionais está acima da Europa. “Temos atualmente uma relação de um dentista para 1.339 habitantes, cerca de 7.200 médicos dentistas com uma média de idades de 34/35 anos. É uma classe muito jovem, onde a renovação vai sentir-se muito tarde e temos uma taxa de crescimento anual de 8,2 por cento”, disse à agência Lusa o bastonário Orlando Monteiro da Silva.
Para o especialista, há já faculdades de Medicina Dentária em excesso (sete), “quase o mesmo número de faculdades de Medicina”, onde existem várias especialidades. “Por aí se vê o exagero”, afirmou o médico, acrescentando que estão atualmente registados no estrangeiros mais de 500 médicos dentistas a exercer no Reino Unido, Suécia, França e outros países europeus, na maioria jovens “sem possibilidade de colocação no mercado de trabalho em Portugal”.
Acresce que, ao contrário de outros países, estes profissionais exercem a actividade quase em exclusivo no privado, logo adverte que o rácio “verdadeiramente deveria ser divido por dois”, já que “mais de metade da população não tem acesso a cuidados de medicina dentária”. “Exceto o mecanismo do cheque dentista, ainda com uma dimensão reduzida, em Portugal não há médicos dentistas em organismos públicos, como noutros países”, frisou.
Assim, Orlando Monteiro da Silva, afiança que Portugal tem “excesso de médicos dentistas” e quase o mesmo número de faculdades da Inglaterra e outros países com uma dimensão maior. “Ficamos muito desiludidos por verificar que as vagas para Medicina Dentária se mantêm ou aumentam ligeiramente, numa área em que não são necessários mais médicos”, criticou.
No total, as sete faculdades disponibilizam 557 vagas: 60 na Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa, 80 na Faculdade de Medicina Dentária do Porto, 42 em Coimbra, 100 no Instituto Superior de Ciências de Saúde do Norte, 65 no Instituto Superior de Ciências Egas Moniz, 75 na Universidade Católica Portuguesa e 95 na Fernando Pessoa.
“As vagas não aumentaram muito, cerca de 4/5 por cento, mas o que se esperaria era uma diminuição, porque se não for feita vamos continuar a ter pessoas no desemprego ou em sub emprego”, declarou. Acresce que no ano passado já houve licenciados a sair mais cedo das faculdades, com a redução do curso de seis para cinco anos, em função do Processo de Bolonha.
“Vamos continuar a ter muitas pessoas numa formação que é das mais caras em Portugal a sair do país para exercer a profissão, aproveitando outros países o investimento que é feito na formação de técnicos altamente qualificados”, lamentou.
“Mais licenciados sim, mas tem de haver um planeamento para não termos problemas no futuro”, defendeu, referindo-se às declarações do ministro do Ensino Superior, Mariano Gago, segundo o qual Portugal tem metade dos licenciados que deveria ter, face a outros países desenvolvidos.
Diário Digital

sexta-feira, 23 de julho de 2010

470. Dentistas recusam clientes que usam cheques do Estado

O atraso no pagamento dos cheques-dentista às clínicas da região Norte que aderiram ao programa de saúde oral já levou algumas a recusar pacientes. Estão em dívida 2,38 milhões de euros, parte há vários meses. A promessa oficial é resolver a situação ainda em Julho.
Marisa Pinto assume claramente que, enquanto não receber os quatro mil euros que tem a haver – parte ainda respeitantes a Julho do ano passado – pelos tratamentos a idosos, grávidas e crianças, a Cliforno não aceitará doentes novos. “Tratamos os que são nossos doentes, para não os perder, mas recusamos doentes novos”.
Os cheques-dentista foram criados no âmbito do Programa Nacional de Saúde Oral e visam dar tratamentos dentários a grávidas acompanhadas nos centros de saúde, idosos beneficiários do complemento solidário e crianças. O Ministério da Saúde paga 40 euros por consulta aos privados que adiram ao plano.
A Cliforno é apenas uma das muitas clínicas com créditos na Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN). A gerente garante que a dívida “está a afectar a actividade”. De cinco mil euros de recibos enviados, apenas recebeu mil. Mas acredita que parte do problema se deve ao facto de só ter enviado os recibos para conferência no fim dos tratamentos (cada criança tem três cheques, tal como as grávidas, enquanto os idosos recebem dois).
Outro médico dentista (que preferiu o anonimato) fala em seis mil euros em atraso. Não recebe desde Janeiro. Não recusou pacientes – “ainda...” – e alerta para o facto de se poder perder na qualidade dos tratamentos.
Do lado da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), o secretário-geral Paulo Melo arrisca o montante em dívida: “quatro milhões de euros”, só no Norte. É a única região que ainda não resolveu os problemas, com o argumento da ligação entre os sistemas informáticos que fazem a conferência dos cheques e processam o pagamento após emitido o recibo.
“Agora dizem que pagam em Julho um volume significativo. Mas já tinham dito que seria em Junho e, antes disso, tinham prometido em Maio”. Paulo Melo garante que “o acumular de dívidas já põe em causa alguns consultórios”, sobretudo num momento de crise. E a situação ameaça piorar até ao final de Agosto, uma vez que os cheques das crianças têm validade até ao dia 31 do próximo mês e deverá registar-se agora uma corrida às clínicas.
A OMD tem “pressionado” o Ministério no sentido de se resolver a questão, o que tem gerado críticas de médicos dentistas. “Andam a pressionar há meses e nada. Só fazem isso?”, questiona um profissional ouvido pelo JN.
Confrontado com a questão, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde reconhece que “a situação não está totalmente resolvida”, mas está a melhorar. A ARS do Centro também enfrentou dificuldades, mas já as solucionou. Mas faz contas diferentes das da OMD para o Norte: estão em dívida 2,38 milhões de euros, dos quais 1,2 milhões serão pagos até ao fim do mês. “O resto está a ser processado”.
Mas são contas que envolvem apenas “cheques já facturados” e não englobam a totalidade dos tratamentos. Manuel Pizarro admite dificuldades da administração e atraso na conferência de cheques, mas garante que muitos consultórios também se atrasaram no envio de recibos.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

469. Jornal i entrevista Orlando Monteiro da Silva (Parte 2: Análise da entrevista/Conclusão)

Todos nós sabemos que a formação de cada médico dentista representa um encargo de largas dezenas de milhares de euros, suportados pelos nossos impostos. É extremamente confrangedor ver emigrar parte dos médicos formados em Portugal; trata-se de recursos limitados que temos em reduzido número face às reais necessidades do país.
Poderá a Ordem dos Médicos Dentistas fazer algo para inverter esta situação, aumentando a oferta da medicina dentária à população em geral, diminuindo por exemplo os custos das consultas e dos tratamentos de forma a abranger um maior universo de pessoas de rendimentos mais baixos? A uma descida no preço das consultas e dos tratamentos dentários poderá corresponder a um aumento muito significativo da população às consultas de medicina dentária, o que terá um efeito positivo no aumento exponencial de receitas totais para as clínicas e consultórios de medicina dentária, o que seria extremamente vantajoso numa época de crise como a que estamos a atravessar actualmente, garantindo mais postos de trabalho e a fixação dos médicos dentistas no nosso país.
Se emigração não é solução, talvez seja altura da própria Ordem dos Médicos Dentistas motivar os jovens médicos dentistas a trabalharem em Portugal, em vez de serem aliciados por empregos no estrangeiro.
Alertados para o facto de existir muito exercício ilegal da medicina dentária em Portugal, com redes clandestinas de recrutamento, aguardamos que a Ordem dos Médicos Dentistas faça a denúncia urgente de cada uma dessas situações junto das autoridades competentes e se ponha fim imediato a tal situação.
Uma boa solução para colocar fim definitivo à controvérsia do exercício ilegal da medicina dentária em Portugal, nomeadamente com recrutamentos feitos no Brasil, seria o trabalho em conjunto entre as classes profissionais dos dois países; por alguma razão o brio profissional de muitos cirurgiões dentistas brasileiros, a trabalhar em Portugal, são elogiados pelas faculdades portuguesas de medicina dentária.

domingo, 18 de julho de 2010

468. PORTUGAL: Só 1 em cada 50 jovens faz higiene oral correcta

Um em cada cinco adolescentes não lava os dentes todos os dias, sendo os rapazes os mais descuidados, revela um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e da Escola Superior de Saúde de Viseu. O mesmo estudo indica que apenas um quarto dos jovens escova os dentes duas ou mais vezes diariamente e que o hábito está relacionado com as habilitações literárias dos pais.
Pouco mais de um por cento cumpria todos os requisitos para uma saúde oral adequada - escovagem duas ou mais vezes por dia, utilização de fio dentário e visita ao dentista duas ou mais vezes por ano. A amostra da investigação foi de sete mil jovens, com idades entre os 12 e os 18 anos, de escolas públicas do distrito de Viseu, que foram questionados sobre hábitos de higiene oral e condições socioeconómicas. O inquérito concluiu que as raparigas escovam mais vezes os dentes, usam mais frequentemente o fio dentário e vão mais a consultas de dentistas.
Nélio Veiga, autor do trabalho, admitiu que a frequência da lavagem dos dentes está relacionada com as habilitações literárias dos pais. «Quanto mais escolarizados são os pais, maior é a probabilidade de o jovem escovar os dentes duas ou mais vezes por dia, seguindo as recomendações clínicas», notou. A área de residência também influencia, uma vez que adolescentes de zonas urbanas indicaram maior prevalência de escovagem em relação aos que vivem em zonas rurais.
Sobre o uso do fio dentário, apenas 4,4 por cento disse usá-lo, enquanto mais de metade da amostra garantiu ter consultado um dentista no ano anterior. Mas 13 por cento dos jovens afirmaram nunca terem ido a uma consulta. Dos que foram consultados por um especialista em Medicina Dentária, metade procurou um dentista para consultas de rotina, 28 por cento devido a dores e 22 por cento por causa de outros problemas.
O investigador manifestou a sua preocupação por uma «elevada proporção» de adolescentes irem ao médico apenas quando têm dores de dentes. «Em Portugal, as desigualdades registadas no acesso aos cuidados de saúde oral das populações são bem evidentes, resultando do facto de, na sua maioria, serem exercidos no sector privado, condicionando o acesso dos mais desfavorecidos por falta de recursos financeiros», lembrou ainda o investigador.
* * *
Esta é a realidade da saúde oral das crianças e jovens em Portugal. Se alguém ainda diz que há excesso de médicos dentistas no nosso país, esta crónica indica que largas centenas de milhares de crianças e jovens continuam a ser marginalizadas no acesso a cuidados de saúde oral.
Afinal, para que servem os departamentos de saúde oral na Direcção - Geral de Saúde, para que serve a saúde escolar, enfim, para que servem as ordens profissionais ligadas à saúde oral? Qual é o objectivo que o Ministério da Saúde e da Educação pretendem fazer face a esta situação?
Uma autentica vergonha por parte de quem deveria, no mínimo, cumprir e fazer cumprir a Declaração Universal dos Direitos da Criança.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

467. Jornal i entrevista Orlando Monteiro da Silva (Parte 2: Análise da entrevista/3)

O Bastonário da Ordem dos Médicos Dentista alerta para o possível erro profundo de cair na tentação de fazer hipermercados de tratamentos de medicina dentária, a partir das próprias faculdades de medicina dentária. Assim, nesse sentido, é necessário e muito urgente regulamentar as parcerias entre os sectores público e privado, de modo a permitir um crescente acesso da população em geral a cuidados de saúde oral e eliminar as diferenças de preços praticadas entre as consultas prestadas nas faculdades de medicina dentária e os consultórios fora das faculdades de medicina dentária. No dia em que ir a uma consulta de medicina dentária seja igual, em termos de custo para os clientes, entre as diferentes ofertas da especialidade, a qualidade passará a determinar onde as pessoas pretendam ser consultadas.
O principal problema da medicina oral em Portugal, a médio prazo, continua a residir na prática de preços completamente exorbitantes na prestação de cuidados de saúde oral; no dia em que os preços se ajustarem à realidade das posses económicas da população, não haverá oferta de médicos dentistas em número suficiente para corresponder à procura. Não se compreende a preocupação da limitação do número de médicos dentistas a formar pelas faculdades de medicina dentária, quando os esforços se deveriam orientar para aumentar a oferta de cuidados de saúde oral, melhorando a qualidade dos serviços prestados e diminuir consideravelmente os preços actualmente praticados nos consultórios; actualmente, a maior parte da população portuguesa continua ainda sem ter qualquer possibilidade de acesso a cuidados de saúde oral ao longo da sua vida.
A aposta na revitalização da especialidade nos Centros de Saúde, conjugado com o desenvolvimento do sector cooperativo e do sindicalismo na área da medicina dentária, aliada a um cada vez maior esforço de cooperação entre médicos dentistas e todos os outros técnicos especializados em saúde oral são fortes opções que podem forçar interesses privados e das multinacionais no sector a baixar o preço da mão – de – obra e da matéria – prima.
É completamente absurdo e falso fazer querer ao país que já existe um número em excesso de médicos dentistas em Portugal. O futuro é uma oportunidade que deve ser agarrada com as duas mãos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

466. Saúde Oral infantil em Portugal: Situação completamente caótica e a precisar de urgente intervenção

No passado dia 30 de Junho de 2010, foram apresentados na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP), os resultados do Projecto ParanhoSorridente. O Projecto, teve início em Outubro de 2008, partiu de um protocolo entre a Junta de Freguesia de Paranhos e a Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP) no sentido de melhorar a saúde oral das crianças e adolescentes que frequentam os jardins-de-infância e as escolas da freguesia de Paranhos.
O Projecto foi patrocinado pela Caixa Geral de Depósitos (CGD). Desde o início dos trabalhos até ao mês de Abril de 2010, o programa de saúde oral comunitária "ParanhoSorridente" passou em revista mais de 3000 bocas de crianças do ensino pré-escolar e do 1.º ciclo do ensino básico da freguesia de Paranhos.
A sessão foi aberta com um breve discurso de apresentação pelo Presidente do Conselho Directivo da FMDUP, Prof. Doutor Afonso Pinhão Ferreira, recentemente eleito Director da Instituição para o quadriénio 2010-2014. Em representação da Junta de Freguesia de Paranhos, Dr. Alberto Machado e a Dr.ª Fátima Lopes, Responsável pelo Pelouro da Educação. E em representação da Ordem dos Médicos Dentistas, o Prof. Doutor Ricardo Faria Almeida.
De seguida, a Responsável pelo Projecto ParanhoSorridente, a Prof.ª Doutora Isabel Roçadas Pires, apresentou os resultados aferidos. Em suma, concluiu-se que quase 70% das crianças de Paranhos, Porto, têm cáries na dentição definitiva, sendo que 39,6% precisa de tratamento urgente.
Nos últimos dois anos, foram efectuados rastreios 1 160 crianças, entre os 3 e os 13 anos na Clínica da FMDUP, além de terem sido realizadas quase duas dezenas de acções de promoção de saúde oral nas nove escolas integradas no projecto. Para além disso, concluiu-se que, em termos da totalidade aferida, 69,1% das crianças têm cáries na dentição definitiva, revelando ainda que quase 50% mostram sinais de inflamação nas gengivas.
Para finalizar, a Responsável pelo Projecto ParanhoSorridente, Prof.ª Doutora Isabel Roçadas Pires, ressalvou que a parceria com a Junta de Freguesia de Paranhos deverá constituir um exemplo a seguir e constituir objecto de participação por parte das instituições política e educativas.
Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto

terça-feira, 6 de julho de 2010

465. Jornal i entrevista Orlando Monteiro da Silva (Parte 2: Análise da entrevista/2)

Para o bastonário da Ordem dos Médicos Dentista, o Estado não tem de prestar cuidados de saúde mas zelar que estes são prestados, regulados e financiados. Segundo essa perspectiva, parece que a OMD defende que os cuidados de saúde devam ser prestados por contratação de serviços a terceiros e suportados financeiramente pelos nossos impostos; é uma opção, como muitas outras. Logicamente terá aspectos positivos e aspectos negativos. No entanto, é preciso lembrar que, em trinta anos, o Estado montou uma vasta e completa rede de serviços públicos de saúde, tanto em quantidade como em qualidade, pelo que seria mais lógico favorecer uma completa concorrência de prestação de cuidados de saúde entre a oferta do sector publico e a oferta do sector privado, deixando a opção aos doentes/clientes; isso sim é que seria a melhor lógica: todos ficaríamos a ganhar e os equipamentos existentes seriam devidamente rentabilizados. Não podemos agora deixar de rentabilizar o investimento público realizado pelo Estado nos últimos trinta anos e entrega-lo a empresas ou grupos económicos privados que visam o lucro, à custa da exploração dos doentes/clientes.
Relativamente ao programa de cheque-dentista, o mesmo é uma desesperada maquilhagem montada pelo Ministério da Saúde no sentido de colmatar parcialmente uma das maiores debilidades criadas pelas erróneas politicas seguidas na área da saúde oral pelos vários governos nos últimos trinta anos; utilizar o cheque-dentista para fidelizar doentes/clientes, à custa da miséria e da pobreza de quem tem de recorrer à sua utilização parece, no mínimo, uma declaração caricata. A fidelização deverá orientar-se, isso sim, pela qualidade dos serviços prestados.
Fica uma pergunta: como foi possível à OMD aceitar o programa quando pedia 80 euros por cada cheque-dentista e o seu valor foi fixado em 40 euros? Afinal, será que os tratamentos efectuados por cada cheque-dentista seriam idênticos caso o seu valor fosse o dobro do actual? São questões prementes que a entrevista não dá a esclarecedora resposta.
Perniciosa continua a ser a relação entre uma grande proporção de dentistas e seguradoras, sem que a OMD imponha uma ordem de ética que salvaguarde a saúde oral dos os doentes/clientes; pura aberração, como não podia deixar de ser, as comparticipações da ADSE nos custos de tratamentos de saúde oral.
(Continua)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

464. BRASIL: Dentistas são contra fim do flúor na água

A Associação Brasileira de Odontologia (ABO) protesta contra o projecto de lei 297/2005, de autoria do senador António Carlos Valadares (PSDB-SE), que limita a utilização de flúor na profilaxia da cárie dentária à aplicação tópica e proíbe a adição da substância na água, bebidas e alimentos.
A proposta revoga a Lei nº 6.050, de 24 de Maio de 1974, que dispõe sobre a fluoretação da água em sistemas de abastecimento quando existir estação de tratamento, e está sendo relatada na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) pelo senador Flávio Arns (PT-PR).
A entidade refuta as justificativas apresentadas pelo parlamentar. Valadares aponta a existência de dados que contrariam a tese de que a ingestão sistémica de flúor é eficaz na profilaxia da cárie dentária e que inúmeros outros estudos mostram também a enorme ocorrência de fluorose dentária.
O parlamentar afirma também que já existe um consenso entre os especialistas de que a acção profilática do flúor decorre sobretudo de sua aplicação tópica e que não faz sentido, portanto, obrigar toda uma população a ingerir um elemento tóxico na água de abastecimento público ou em alimentos e bebidas nos quais ele vem sendo rotineiramente adicionado.
Método eficaz e de baixo custo – De acordo com a ABO, a fluoretação do sistema de abastecimento público de água pode reduzir em até 60% a incidência de cáries. As estatísticas oficiais confirmam a validade da medida. O Ministério da Saúde diz que entre 1986 e 1996, houve uma queda de 53% na prevalência de cárie em crianças de 12 anos de idade provocada pela política de fluoretação.
O flúor é indicado por mais de 150 organizações de ciência e saúde, entre as quais a Federação Dentária Internacional (FDI), a Associação Internacional de Pesquisa em Odontologia (IADR), a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e, desde que seja oferecido à população em dosagens e teores adequados, não oferece risco às pessoas, declara o presidente da ABO.
OMS e FDI defendem o flúor – Segundo o Relatório Mundial da Saúde Oral de 2003 da OMS, as cáries continuam a ser um grande problema da saúde na maioria dos países industrializados, afectando de 60 a 90% das crianças em idade escolar e a grande maioria dos adultos. Ainda de acordo com o documento, a adição de flúor à água, onde possível tecnicamente e aceito culturalmente, tem vantagens substanciais na saúde pública.
Em Novembro de 2000, em Paris (2000), a FDI aprovou o Relatório sobre Flúor e Cárie. O documento conclui, com base em vasta evidência científica, que se a substância for usada apropriadamente e com as concentrações adequadas para a prevenção de cáries, o flúor é seguro e eficaz.
O relatório informa que a fluorose dental pode ser causada pela ingestão excessiva de flúor durante o desenvolvimento pré-eruptivo dos dentes, mas que nos níveis de flúor utilizados para prevenir as cáries, a opacidade ou fluorose somente ocorre numa proporção relativamente pequena da população.
De acordo com o relatório, estes sintomas em geral são muito suaves e, principalmente, de interesse estético. Conforme a FDI, uma vez que os níveis de ingestão sejam cuidadosamente monitorados, o flúor é considerado a medida da saúde pública mais importante para a manutenção da saúde oral.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

463. Jornal i entrevista Orlando Monteiro da Silva (Parte 2: Análise da entrevista/1)

A entrevista prestada pelo bastonário da OMD ao Jornal i assume peculiar importância, constituindo uma mais – valia valiosa e premente para a necessidade urgente que o país atravessa, relativamente de se discutir a sustentabilidade do SNS e, enquadrando nele, o rumo a dar à saúde oral no nosso país. Neste contexto, a entrevista refere vários problemas que hoje condicionam a saúde oral em Portugal e aponta vários cenários para o futuro; por outro lado, levanta questões que merecem carácter urgente de resolução por parte do poder político.
Entenda-se esta reflexão à entrevista como mais um contributo necessário para alargar a discussão, no sentido de procurar consensos e assegurar, para o futuro, o acesso a cuidados de saúde oral a todos os portugueses. O contributo é mínimo; outras contribuições para a discussão serão sempre bem – vindas.
Afirma o presidente da OMD que a Constituição da República não deveria aludir a um SNS tendencialmente gratuito, chamando a atenção para a necessidade de um determinado grau de participação económica na utilização dos serviços de saúde; é necessário e urgente ir muito mais longe nessa questão – os partidos representados na Assembleia da República e o Governo têm o absoluto dever moral de implementarem medidas tendentes à criação de seguros de carácter obrigatório, na área da saúde, destinados aos cidadãos, e que lhes assegurem um complemento às despesas que eventualmente cada cidadão venha a ter ao longo da sua vida.
A política fiscal pode e deve ser utilizada para incentivar a poupança; acontece que o actual Governo, ao limitar os benefícios fiscais relativamente aos gastos em saúde, está directamente a contribuir para os portugueses desinvestirem parte das poupanças na promoção da sua própria saúde e, indirectamente, constitui mais um grave factor de redução drástica da sustentabilidade do SNS.
Não é depois com taxas moderadoras que se vai buscar o financiamento que se perde por políticas erróneas de política fiscal; as taxas moderadoras representavam um dos mais graves atentados de discriminação entre as pessoas no acesso a cuidados médicos, porque ninguém escolhe estar doente.
O bastonário da OMD tem toda a razão quando afirma que o SNS é centralizado e as decisões são tomadas por um pequeno grupo de pessoas; esse constitui realmente um defeito marcante das políticas de saúde em Portugal – meia dúzia de pessoas enfiadas em gabinetes e muitas vezes afastadas das dificuldades do dia a dia que os nossos profissionais do SNS enfrentam no terreno, são capazes de tomar, por vezes, opções absurdas e afundam os cofres públicos do país sem que daí prestem quaisquer contas ou sejam responsabilizados.
Por exemplo, só na área da saúde oral e em postagem anterior, está demonstrado para onde foram parar milhões de euros dos programas de saúde oral que deveriam ter sido gastos em actos médicos.
É urgente implementar a responsabilização a todas as nomeações para cargos intermédios e superiores do SNS: resultados positivos carecem de louvor e promoção; resultados negativos carecem de responsabilização e consequente despromoção ou destituição de funções.
Afirma o bastonário da OMD que é preciso reorientar o SNS para a prevenção; de facto, talvez largas dezenas de milhares de milhões de euros podem anualmente ser poupados com a implementação de um SNS mais preventivo. Também a aplicação de uma verdadeira politica publica de prevenção de saúde oral poderá contribuir para a redução, a médio e longo prazo, do peso do orçamento das famílias em gastos com o tratamento dentário. Haja coragem e assumam que isso é possível; não se peça responsabilização aos cidadãos quando não há educação para esse objectivo.
Afinal, cabe ao Governo e ao SNS a responsabilidade pelo estado de saúde da população em geral; compete-lhes ajudar as pessoas a tomarem as melhores decisões pela sua saúde.
(Continua)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

462. Uma clínica familiar que trata de sorrisos há 30 anos

“Porque sorrir revela sempre uma emoção” é a frase que se encontra na sala de espera do Laboratório de Prótese e Clínica de Medicina Dentária Luís Jesus Neves, aberto há mais de trinta anos na rua Gualdim Pais n.º 9, 2.º esquerdo, junto à Biblioteca Municipal de Tomar.
Acumulando a experiência e saber de Luís Neves e sua esposa Hortense, técnicos de prótese dentária, este foi um dos primeiros cinco consultórios a abrir na cidade de Tomar, mantendo uma carteira de clientes que já atravessa gerações. Uma empresa de natureza familiar que agora vê este aspecto reforçado uma vez que a filha mais nova do casal, Diana Neves, de 25 anos, acabou por se formar em Medicina Dentária.
“Os meus pais abriram a empresa como laboratório de prótese dentária mas os pacientes foram evoluindo e decidiu-se, há 15 anos, expandir a clínica com a parte de medicina dentária”, explicou a O MIRANTE, Diana Neves que trabalha há cerca de ano e meio na clínica, onde muitos pacientes a conhecem desde criança. Ser dentista era, de resto, um sonho de Diana Neves, que se especializou em Implantologia e Estética Dentária. “O mais gratificante é ver o sorriso das pessoas no final do tratamento e vermos a sua auto-estima aumentar”, considera a jovem médica.
Actualmente trabalham no Laboratório de Prótese e Clínica de Medicina Dentária Luís Jesus Neves três médicos dentistas, que oferecem todos os tratamentos na área da medicina dentária, e dois técnicos de prótese dentária. Não há protocolos estabelecidos com instituições mas a clínica aderiu ao cheque-dentista, disponibilizado pelo Ministério da Saúde a mulheres grávidas seguidas no Serviço Nacional de Saúde (SNS), utentes do SNS que beneficiem do Complemento Solidário para Idosos e crianças ou jovens com idade inferior a 16 anos.
“Estamos sempre atentos a novas técnicas, apostamos na inovação de equipamentos e materiais e na formação contínua, participando em workshops nacionais e internacionais”, disse Diana Neves salientando ainda a relação muito estreita e até de amizade que estabeleceu com os pacientes. Futuramente, a clínica vai mudar para umas instalações que estão, neste momento, a ser construídas de raíz na Estrada da Serra, podendo aumentar o número de especialidades oferecidas.
O Laboratório de Prótese e Clínica de Medicina Dentária “Luís Jesus Neves está aberto de segunda a sexta-feira, das 09h00 às 13h00 e das 14h30 às 19h00. Apesar deste horário, existe um serviço de urgência 24 horas, estando o telefones da clínica, com o número 249 321 110, redireccionado de modo a atender qualquer situação de emergência, independentemente da hora a que ocorra.

terça-feira, 22 de junho de 2010

461. Jornal i entrevista Orlando Monteiro da Silva (Parte 1: A entrevista)

Hoje com 47 anos, Orlando Monteiro da Silva foi o bastonário mais novo de sempre no país. Está desde 2001 à frente da Ordem dos Médicos Dentistas, área que entrou tarde no comboio na saúde, mas - diz - de forma inteligente. Vai propor num encontro das Ordens de saúde esta quarta-feira em Lisboa que se altere a Constituição: o Serviço Nacional de Saúde não pode ser tendencialmente gratuito, como está escrito, e a auto-responsabilização dos doentes é essencial. Reduzir os numerus clausus das faculdades de Medicina Dentária é outro objectivo. Mas também há seguros e convenções como a ADSE a estrangular a classe.
Jornal i - Como vê as medidas para reduzir a despesa do SNS?
Orlando Monteiro da Silva - Tenho chamado ao SNS uma espécie de comboio, onde a medicina dentária não entrou senão muito recentemente, que se aproxima de um precipício se nada for feito, nomeadamente em termos de financiamento. São medidas simbólicas, num contexto político em que há uma pressão grande para que se faça alguma coisa, mas não vão mudar nada de substancial.
Jornal i - Tem alguma proposta?
Orlando Monteiro da Silva - É preciso rever a Constituição no que respeita ao SNS. O artigo 64º, que fala sobre ele, deve ser o mais resumido possível, sem a alusão a um SNS tendencialmente gratuito. É fundamental que haja um grau de participação económica na utilização dos serviços de saúde.
Jornal i - Mas essa participação existe...
Orlando Monteiro da Silva - Existiu. Foram dados sinais contraditórios, de certa forma até eleitoralistas. Tínhamos taxas moderadoras simbólicas, foram aumentadas e depois foram abolidas. Convém ter em linha de conta que cerca de 50% dos utentes já estavam isentos. A Constituição deve ter um princípio geral sobre o SNS, mas o seu modus operandi não pode estar limitado. Diz por exemplo que o SNS tem gestão descentralizada e participada, quando é tudo menos isto. É centralizado e as decisões são tomadas por um pequeno grupo de pessoas.
Jornal i - Vê outras lacunas?
Orlando Monteiro da Silva - A área da saúde não vive isolada. É preciso uma melhor articulação para reorientar o SNS para a prevenção. Outra noção antipática, provavelmente, é a de auto-responsabilização.
Jornal i - Antipática porquê?
Orlando Monteiro da Silva - É uma noção estranha à maioria da população. O primeiro e último responsável pela saúde é o próprio. É o principal responsável e o principal interessado.
Jornal i - Isso não tem acontecido?
Orlando Monteiro da Silva - Não. Todos os dias vemos uma projecção para os serviços de saúde da resolução de problemas provocados por atitudes ou a falta delas, por decisões que se foram tomando ao longo da vida. É preciso ajudar as pessoas a tomarem as melhores decisões pela sua saúde.
Jornal i - Disse em tempos que o Ministério tratava os portugueses como se não tivessem boca. Mantém esta opinião?
Orlando Monteiro da Silva - Foram dados passos positivos. Nós não apanhámos o comboio do SNS, mas a nossa forma de entrar foi mais inteligente e sobrecarrega menos a sociedade. Com o programa do cheque-dentista foram contratados alguns serviços básicos, para alguns grupos da população, o que é uma lógica de outsourcing muito seguida no SNS inglês. O Estado não tem de prestar cuidados de saúde mas zelar que estes são prestados, regulados e financiados.
Jornal i - Os tratamentos são iguais para quem chega com o cheque-dentista?
Orlando Monteiro da Silva - É essa a nossa ética. O investimento em tratar bem uma criança é uma oportunidade de fidelizar doentes/clientes.
Jornal i - Mas há queixas de que essa diferença existe com os seguros de saúde...
Orlando Monteiro da Silva - A Ordem está proibida de ter tabelas de valores mínimos ou máximos em termos honorários. A intervenção no cheque-dentista foi diferente, por ser um programa social que pressupõe o envolvimento social dos médicos. Lembro-me da conversa com o professor Correia de Campos sobre o montante dos cheques: sugeri 80 euros, ele, 35 euros e o valor final foi de 40 euros. No que diz respeito às seguradoras, os contratos/convenções são uma decisão individual, cada médico aceita ou não trabalhar mediante as condições colocadas.
Jornal i - Houve alguma sensibilização?
Orlando Monteiro da Silva - Já o fizemos. Só há uma coisa que sensibiliza as seguradoras - o dinheiro -, o que não deixa de ser legítimo. Isto obedece a uma lógica de mercado: as seguradoras aproveitam-se do número de médicos-dentistas para unilateralmente imporem as suas tarifas. Dão-se ao luxo até de baixar as tabelas dos valores que propõem. Chega a haver tratamentos ou intervenções propostos a custo zero. Aqui temos uma denúncia de dumping há cerca de um ano e estamos à espera. Mas isto são situações do foro privado, entre o médico dentista e a convenção ou a seguradora. Situação bem diferente é ADSE, que não actualiza os valores nas suas tabelas há 19 anos.
Jornal i - São muito baixos?
Orlando Monteiro da Silva - O valor de uma extracção dentária ronda os 10 euros, o que não paga sequer os materiais envolvidos. É completamente inaceitável e uma situação de concorrência desleal. Mas há mais: uma seguradora tem direito de fazer contratos, enquanto a ADSE deve funcionar com concursos. Um médico dentista que queira fazer contrato com a ADSE não pode, pois há mais de dez anos que a convenção está fechada. Mas se um grande grupo económico abrir uma clínica aparece logo com todas essas convenções. Não há uma regulação eficaz em Portugal.
Jornal i - O que pensa da corrida às clínicas das faculdades?
Orlando Monteiro da Silva - A função das faculdades não é competir com o mercado de saúde, mas é importante que esses serviços existam para formação dos alunos.
Jornal i - Mas também há médicos a dar consultas nas faculdades.
Orlando Monteiro da Silva - Só se estiverem inseridos em pós--graduações.
Jornal i - É isso que acontece na prática? Só em Lisboa e no Porto as faculdades dão mais de 70 mil consultas por ano.
Orlando Monteiro da Silva - Não tenho dados sobre a matéria, mas acho que há uma tentação crescente para isso, por via do estrangulamento do financiamento. Querer fazer das faculdades hipermercados de tratamentos de medicina dentária é um erro profundo. Mas o meu repto principal para as faculdades é que estão a ser uma de fábrica de médicos dentistas.
Jornal i - Vão intervir?
Orlando Monteiro da Silva - Temos uma petição aprovada e em Junho vamos começar a recolher assinaturas para levá-la a discussão em sede de comissão e plenário no início do próximo ano. O objectivo é mudar alguns aspectos da lei para adequar as entradas nas faculdades às necessidades do país. Temos cerca de 500 alunos formados por ano, número que tem aumentado com o processo de Bolonha. Os médicos dentistas têm uma média de idade de 37 anos e sabemos que não haverá gente a reformar-se nos próximos 4/5 anos. Calculo que este número tenha de ser diminuído gradualmente 10%/ano, até chegar a metade.
Jornal i - Vão propor a extinção de algum curso?
Orlando Monteiro da Silva - Não, embora sete faculdades seja excessivo. O Reino Unido, com mais de 50 milhões, de habitantes têm 9 faculdades.
Jornal i - Quais são as perspectivas destes jovens médicos dentistas?
Orlando Monteiro da Silva - Grande parte é forçada a sair do país. A sociedade portuguesa não precisa de mais médicos dentistas, e estamos a assistir a uma fuga de cérebros depois de uma formação cara. Muitos deles nunca voltam e isso constitui um prejuízo enorme se pensarmos que esta formação rondava, há uns anos, os 100 mil euros.
Jornal i - O número de médicos a saírem do país está a aumentar?
Orlando Monteiro da Silva - No Reino Unido são perto de 440. Para os outros países da Europa não temos números.
Jornal i - Pensando no Reino Unido, o que é que têm cá e o que vão ter lá?
Orlando Monteiro da Silva - Cá têm um futuro incerto, uma dificuldade enorme de inserção no mercado, uma rede de mais de 5000 clínicas e consultórios em que abrir mais um é praticamente um suicídio. Sobretudo o número de doentes que atendem é muito baixo. Há colegas nossos que estão no consultório o dia todo à espera de um doente, que pode aparecer ou não. A diferença é que eles chegam a Inglaterra a ganhar sete ou oito mil libras por mês.
Jornal i - Recém-licenciados?
Orlando Monteiro da Silva - Sim. E isso em Portugal nem um sénior. Mas não é solução propor aos jovens que saiam do país.
Jornal i - Mas como se compete com um salário de 8000 libras?
Orlando Monteiro da Silva - Sair do país é um direito, mas há alguma coisa a dizer sobre a política de formação de recursos humanos. Se não houver um acesso crescente da população à medicina dentária, se não houver um crescimento económico do país, se não houver produtos/seguros com qualidade, grande parte destas pessoas não vão ter futuro na medicina dentária.
Jornal i - Há exercício clandestino?
Orlando Monteiro da Silva - Há muito exercício ilegal em Portugal, com redes clandestinas de recrutamento. Com o Brasil é muito frequente. Há colegas que conhecem outros, vêm para cá três/quatro meses fazer umas consultas, depois voltam para lá.
Jornal i - Como passam receitas?
Orlando Monteiro da Silva - No nome de colegas legais que os encobrem. Daí a importância da nova lei do licenciamento: até ao próximo ano todos os consultórios vão ter de pedir licença. E haverá inspecções periódicas.
Jornal i - Qual é a dimensão do problema?
Orlando Monteiro da Silva - Temos ideia das queixas, mas não há ideia do que representa pois só com uma fiscalização eficaz é que seria possível.
Jornal i - É o primeiro português eleito presidente na Federação Dentária Internacional. Sente-se a representar Portugal?
Orlando Monteiro da Silva - Sinto que é bom para o país. A minha voz na Ordem fica mais ampliada pelo facto de ser presidente eleito da FDI, mas nas minhas funções do dia-a-dia embora tente focar a realidade portuguesa, não é isso que se espera. Não fui eleito por ser português, nem por ser bastonário.
Jornal i - Mas se desse um bom exemplo português, qual seria?
Orlando Monteiro da Silva - A qualidade dos médicos dentistas, a prática privada e o programa cheque-dentista. A experiência do cheque-dentista, embora limitada, tem sido acompanhada com bastante interesse em termos internacionais. Não se julgue que só em Portugal é que a saúde oral é negligenciada. Neste momento seria muito penalizante se alguém quisesse acabar com o programa.
Jornal i - Já ouviu falar nisso?
Orlando Monteiro da Silva - Já ouvi dizer que o corte no SNS podia incluir o cheque-dentista.
Jornal i - A quem?
Orlando Monteiro da Silva - Sobretudo comentadores, outsiders. Primeiro porque o que se gasta com o programa - 30 milhões de euros - face ao benefício que dá a milhares de pessoas, é irrelevante. Depois porque não há mais nada, e há muito por onde cortar. O grande problema do cheque-dentista é a expectativa que está a criar na população não abrangida. Isto é que, imagino, se pode tornar difícil de gerir...
Jornal i - Não há inveja nos médicos das outras especialidades?
Orlando Monteiro da Silva - Estou convencido que este programa vai ser alargado a outras áreas. Oftalmologia, otorrinolaringologia... É importante ver que este programa nasce por vontade política mas também por consciência de que por fim é uma área valorizada. Mais de metade da população não tem nenhum dente na boca. Lembro-me de há uns anos faltarem-lhe dois dentes a uma miss de Portugal, o que é impensável.
(Continua)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

460. Projecto Paranho Sorridente: Apresentação dos resultados

CONVITE
* * *
O Director da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto e o Presidente da Junta de Freguesia de Paranhos têm a honra de convidar V. Exa. a participar na apresentação dos resultados relativos ao Projecto ParanhoSorridente, que se realiza no Auditório da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto no dia 30 de Junho de 2010, às 18:00 horas.
Afonso Pinhão Ferreira, Director da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto;
Alberto Machado, Presidente da Junta de Freguesia de Paranhos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

459. Dentistas 'adoptam' crianças e garantem tratamentos gratuitos

São dentistas e comprometem-se a "adoptar" crianças e a garantir- -lhes tratamentos gratuitos aos dentes até aos 18 anos. Para pôr em prática este projecto de solidariedade pioneiro no País, os dentistas estão no terreno, nas zonas mais carenciadas, e já identificaram 489 crianças. Destas, 109 foram já seleccionadas por apresentarem problemas dentários muito graves.
"Há muito por fazer na saúde oral em Portugal e as crianças não escapam. A nossa ideia é levar estes cuidados aos que mais precisam, mas tendo em conta que, além do tratamento, queremos ajudá-los a formarem-se como pessoas", conta Virgínia Milagre, coordenadora do projecto Dentista do Bem, que hoje é apresentado em Lisboa e conta com o apoio da Fundação EDP.
Em Portugal, desde o início do ano, o projecto já conta algumas dezenas de médicos-dentistas voluntários, que prometem "transformar a vida das crianças e jovens mais carenciados", através de tratamentos dentários gratuitos até aos 18 anos.
"Até podemos ser poucos, mas este nosso trabalho contribuirá para mudar a vida de alguém e só isso já é importante", diz Virgínia Milagre, que também receberá crianças gratuitamente no seu consultório.
O Dentista do Bem promovido pela organização não governamental Turma do Bem arrancou em 2002 no Brasil.
Nesta primeira fase, os profissionais, em articulação com as escolas, visitam os estabelecimentos para um primeiro rastreio, durante o qual são identificados os alunos com carências.
Segue-se depois a segunda fase, em que cada jovem, entre os 12 e os 18 anos, é colocado à "responsabilidade" de um médico-dentista, que o "adopta" profissionalmente.
"Em tempos de crise estamos atentos à nossa realidade e dispostos a ajudar. Mas também sei que, porventura, prestar estes tratamentos de forma gratuita não deve agradar a todos os colegas", desabafa a coordenadora.
No terreno há dois meses, o Dentista do Bem já tem voluntários nas escolas, sobretudo na zona da Grande Lisboa, a identificarem jovens a quem possam proporcionar "um novo sorriso".
Orlando Silva será um dos médicos que vai "adoptar" estas crianças. "Tenho dois consultórios e por isso vou poder tratar quatro crianças e jovens. Mais para a frente logo se vê, quem sabe se não serão mais", conta.
Aderiu ao projecto por contacto com outros colegas e aguarda agora pela atribuição dos menores. "É uma forma de prestar um serviço à comunidade. São crianças que provavelmente não teriam outra hipótese de receber apoio e por isso cá estou", acrescenta ainda.
Todas as crianças do projecto são seleccionadas através de uma triagem feita em escolas da rede pública nacional de acordo com um método próprio, o IHC - Índice de Hierarquia de Complexidade. São três os critérios de escolha fundamentais: problemas de saúde oral graves, poucas possibilidades económicas e idade até aos 18 anos.
O projecto conta com o apoio da Direcção-Geral de Saúde e acaba por servir de complemento ao cheque-dentista. "Este programa é para crianças até aos 12 anos. O nosso projecto é a partir dos 12 anos, para as crianças com maiores dificuldades", justifica Virgínia Milagre. Por isso, de alguma forma, complementam-se.
Será através de Portugal que o Dentista do Bem se "estreará" na Europa. Mas esta organização não governamental já tem provas dadas em poucos anos de existência: já ajudou mais de 12 mil crianças e jovens na América Latina, envolvendo uma rede de mais de 7000 dentistas voluntários.
Diário de Notícias

sexta-feira, 11 de junho de 2010

458. Dentistas aplaudem novas regras de licenciamento de clínicas

A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) veio, esta quarta-feira, a público, elogiar as novas regras de licenciamento das clínicas dentárias, que considera serem uma ferramenta importante para «combater o exercício ilegal da profissão».
«A OMD congratula-se com a publicação desta legislação que tornará possível ao público a identificação dos locais devidamente licenciados, garantindo-se, desta forma, a qualidade e a segurança dos serviços de saúde prestados», refere a instituição, em comunicado citado pela edição online do i. «Esta legislação será igualmente importante no combate ao exercício ilegal da profissão, uma vez que estas situações serão mais facilmente identificáveis, fazendo justiça à maioria esmagadora dos médicos dentistas que cumprem todos os requisitos necessários para uma prestação segura dos actos de medicina dentária».
Em causa está a portaria 268/2010 relativa ao Decreto-Lei nº 279/2209, de 6 de Outubro, que, entre outros requisitos, obriga a que esteja colocado «em local bem visível do público o horário de funcionamento, o nome do director clínico, os procedimentos a adoptar em situações de emergência e os direitos e deveres dos utentes, devendo ainda estar disponível para consulta a tabela de preço».
* * *
Óptimo; a saúde oral precisa e necessita de evoluir no nosso país. Esperemos agora também por legislação que regularize a actividade de todos os profissionais de saúde oral existentes em Portugal, avaliando periodicamente os respectivos exercícios profissionais e as necessidades de aquisição de novos conhecimentos e de aperfeiçoamentos profissionais.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

457. Jovem de Abrantes pede ajuda para voltar a sorrir sem dores

Luís Lourenço gostava de colocar um aparelho nos dentes mas primeiro tem que ser operado para alinhar os maxilares, intervenção que custa cerca de 15 mil euros e que não é comparticipada pelo Sistema Nacional de Saúde.
Depois de ver todas as portas fecharem-se, Luís Lourenço, 21 anos, morador em Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, decidiu expor publicamente o seu problema para tentar encontrar alguém que se solidarize com o problema de dentição que o atormenta. “Tenho muitas dificuldades para comer porque os dentes da frente (inferiores e superiores) não se juntam e acabo por fazer feridas no céu-da-boca com os incisivos da mandíbula inferior”, relata, acompanhado pela irmã, Ana.
Luís, que sempre teve muitos problemas dentários e complexos pela sua situação, gostava de colocar um aparelho de ortodontia mas foi informado pela dentista que o acompanha que tinha o maxilar inferior muito reduzido. De acordo com o atestado passado pela médica, e que faz questão de mostrar, tal só seria possível se fizesse uma cirurgia correctiva de forma a expandir as bases ósseas.
“Fui encaminhado para um cirurgião plástico que me confirmou que tinha um “deficit bimaxilar acentuado” e que só assim conseguiria esticar a mandíbula e obter uma harmonia esquelético-dentária para colocar o aparelho”, relatou. Todo o processo que permitia a Luís voltar a sorrir sem dores está avaliado em 15 mil euros.
O problema é que Sistema Nacional de Saúde (SNS) não comparticipa a medicina dentária. Em Setembro de 2007, o bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, Orlando Monteiro da Silva, frisava que cerca de metade da população portuguesa não tinha capacidade para pagar uma consulta de medicina dentária. “Enquanto não houver médicos dentistas nos centros de saúde ou sistemas de concessão, as pessoas estarão excluídas da saúde oral”, afirmou em entrevista à agência Lusa.
“Apesar de ter bastantes dores, sei que poderei vir a ter problemas respiratórios graves caso não corrija este problema”, atesta, triste por ter visto recusado financiamento junto de várias instituições bancárias. Também as companhias de seguros recusaram fazer a apólice uma vez que o problema já existe. “O meu pai é reformado, a minha mãe é doméstica e a mim não me dão o empréstimo porque trabalho numa empresa de trabalho temporário”, explica o jovem que diz que o seu problema é mais de saúde do que estético, mostrando-se revoltado por não ser operado através de uma unidade hospitalar estatal, mesmo fazendo os seus descontos e contribuições para a Segurança Social.
“Não temos 15 mil euros nem quem nos empreste este valor. Não temos outra solução e preocupa-me o meu irmão estar a sofrer. Esta não é uma questão estética mas sim de saúde. O meu irmão, neste momento, está a tomar todos os dias medicação para as dores.”, atesta Ana Lourenço, 27 anos, agastada com o problema que se arrasta e sem ter nada para hipotecar que possa ajudar. Por ter esperança e acreditar aceitou expor a situação.
Em Portugal, apenas as regiões autónomas têm sistemas de saúde oral a servir os utentes do SNS. Dados estatísticos da altura, indicavam que nos Açores há 19 médicos dentistas no sistema público regional de saúde e a Ordem prevê que, em alguns anos, os Açores tenham os melhores indicadores de saúde oral. Já na Madeira, há uma convenção entre o serviço regional de saúde e os privados, em que o sistema público reembolsa em parte o custo dos utentes que recorrem a dentistas privados.
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Talvez o Senhor Director – Geral de Saúde e a Senhora Ministra da Saúde tivessem mais tacto e juízo se resolvessem de imediato esta situação, em vez de estarem a financiar os canais de televisão portugueses em centenas de milhares de euros (dezenas de milhares de contos), sem que daí saia um único acto médico.
Como alternativa, coloquem de imediato os seus lugares à disposição de quem saiba gerir melhor os bens públicos do país.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

456. "Lançamento Turma do Bem Portugal", Segunda-feira, 14 de Junho às 19:30

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NOTA PESSOAL:
Pensei várias vezes se deveria publicar a postagem. Infelizmente, para mim, a EDP representa o nicho de empresas puramente capitalistas e sem uma verdadeira vocação social, o que leva-me a questionar o real interesse da TURMA DO BEM em fazer projectos com esta entidade (dá-me a entender que deve entrar aqui o mecenato, numa tentativa desesperada do Grupo EDP de fugir aos impostos; se assim for, então estamos em presença do pior mecenato praticável em Portugal).
Não coloco em causa a boa vontade da TURMA DO BEM em levar a saúde oral aonde o estado português falha por completo e as ordens profissionais do sector tapam os olhos, na tentativa de deixarem tudo como está e assim tudo continuar exactamente na mesma.
Lamentando o facto de o governo tirar dos nossos impostos para pagar a formação de dentistas que jamais estarão à disposição daqueles que mais precisam (a ética, neste caso, não conta para muitos profissionais de saúde oral, não conta para a Direcção - Geral de Saúde, nem tão pouco para o Ministério da Saúde, caso contrário os dentistas formados teriam de trabalhar no Serviço Nacional de Saúde num período mínimo de 2/3 anos para compensar a sua formação à custa dos nossos impostos), assusta-me agora ver aparecer este tipo de projecto associado a empresas multinacionais, aliadas ao grande capital e à exploração de mão-de-obra barata, ao mesmo tempo que nos fornece a energia eléctrica mais cara da Europa (toda a gente se lembra do escândalo do ano passado, quando a EDP pretendia aumentar escandalosamente o preço da energia eléctrica).
Se não bastasse, refiro também que, eu próprio também já fui uma vítima escandalosa por parte da EDP, pois tendo-se realizado concurso externo para admissão de recursos humanos e tendo eu ficado em primeiro lugar, em concurso nacional, aguardo à 20 anos que seja integrado na empresa (infelizmente não tive um padrinho dentro da EDP).